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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Geografia

2. Geografia
FUTEBOL E GEOGRAFIA: POSSIBILIDADE DE APREENSÃO ATRAVÉS DO
CONCEITO DE ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
Fernando Rosseto Gallego Campos*
* Graduado em Geografia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP); Graduado em Comunicação Social –
Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Endereço: Av. Silva Jardim, 2833, ap. 901 – Curitiba – PR. E-mail: fgallego@gmail.com

RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a pertinência e a importância do estudo do futebol sob o olhar da ciência geográfica, bem como as possibilidades de isto ser feito através do conceito de espaço de representação do futebol. A renovação da Geografia Cultural permite a incorporação de novas temáticas e abordagens, tais como o futebol. Este é um importante elemento sócio-cultural e espacial e merece mais atenção da ciência geográfica.
Propõe-se esta aproximação através do conceito de espaço de representação do futebol, desenvolvido a partir das formulações de Lefébvre (1991), Soja (1996) e Gil Filho (2003).
Este é uma instância da espacialidade própria do futebol composta por diversos elementos tais como: fato futebolístico; prática social do futebol; poder; símbolo; mito moderno; discurso; identidade futebolística; política institucional; ethos futebolístico e paixão/afetividade.
Palavras-chave: futebol; abordagem cultural em geografia; espaço de representação; espaço de representação do futebol.
ABSTRACT
The following work aims demonstrate the aptness and the importance of the football study under geographic eyes, such as the possibilities to do this trough the football representational space concept. The Cultural Geography’s renewal allows the incorporation of new thematic and approaches, such as football. This is an important social-cultural and spatial element that deserves geography science attention. This approximation is proposed trough the football representational space concept, veloped from the Lefébvre’s (1991), Soja’s (1996) and Gil Filho’s (2003) formulations. This is a football own spatial instance compounded by several elements, such as: footballing fact; social practice of football; power; symbol; modern myth; speech; footballing identity; institutional politics, footballing ethos and passion/affection. Key-words: football; cultural geography approach; representational space; football representational space.
INTRODUÇÃO
A Geografia Cultural não apenas permite, mas exige a incorporação tanto de novas abordagens teóricas como de novas temáticas. Dentro deste contexto é que se propõe a apreensão do futebol pela ciência geográfica, pois este é um importante elemento sociocultural e espacial brasileiro. Isto é possível a partir de diversas abordagens teóricas. Aqui se apresenta uma proposta, a do conceito de espaço de representação do futebol, desenvolvido a partir das formulações de LEFÉBVRE (1991), SOJA (1996) e GIL FILHO (2003), além da teoria das representações sociais de MOSCOVICI (2003).
O objetivo deste artigo é demonstrar a pertinência e a importância do estudo do futebol sob o olhar da ciência geográfica, bem como as possibilidades de isto ser feito através do conceito de espaço de representação do futebol. Este é uma instância da espacialidade própria do futebol, cuja experiência se dá no cotidiano. Ele é formado por diversos elementos, tais como: fato futebolístico, prática social do futebol, poder, símbolo, mito moderno, discurso, identidade futebolística, política institucional, ethos futebolístico e paixão/afetividade.
Primeiramente, é realizada uma discussão acerca das novas possibilidades que a renovação da abordagem cultural em geografia oferece, bem como de que maneira o futebol se insere neste contexto como um elemento importante para a ciência geográfica. Posteriormente, é apresentado o conceito de espaço de representação do futebol, uma alternativa teórica que possibilita o estudo do futebol pela Geografia a partir de seus diferentes aspectos (esportivo, cultural, social, espacial, etc.).
FUTEBOL E ABORDEGEM CULTURAL EM GEOGRAFIA
A partir da década de 1980, a nova abordagem cultural em geografia passa a incorporar elementos não materiais em seus estudos, rompendo com o positivismo e se aproximando do ideal pós-moderno (GOMES, 1996). A cultura ganha caráter dinâmico e em evolução. Passa de uma geração para outra, mas modifica-se neste processo de comunicação e nas transformações sociais. Aspectos materiais continuam fazendo parte dos trabalhos, mas em outro contexto. Deixam de ser a única forma de se explicar as relações culturais e passam a ser estudados junto dos aspectos cognitivos, das atividades mentais e trocas de informações e idéias. As antigas metodologias, técnicas e teorias são repensadas permitindo um maior diálogo com novas concepções dentro da própria geografia e outras derivadas das demais ciências.
A cultura passa a ser definida como “a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e, em outra escala, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte” (CLAVAL, 2001a, p.63).
Desta maneira, a cultura deixa de ser apreendida como algo já dado e estanque, mas agora como algo dinâmico e de caráter simbólico. Desta forma, temáticas até então negligenciadas pela ciência geográfica, como o futebol, passam a ser incorporadas (MASCARENHAS, 1999). No caso especifico deste, apesar das novas possibilidades epistemológicas, ele ainda não recebe a atenção necessária da ciência geográfica. Há pouquíssimos trabalhos que abordam esta temática sob o olhar geográfico.
É fundamental que a Geografia dê mais atenção para o futebol, pois este é um importante elemento da sociedade brasileira, tanto sob sua dimensão esportiva quanto cultural, social, identitária e até mesmo espacial. O futebol faz parte do cotidiano dos brasileiros, que manifestam através dele sua cultura e sua visão do espaço. Ele constrói territorialidades próprias, apropriando-se de elementos simbólicos. Ele transcende, assim, sua qualidade esportiva, passando ser um fator essencial para a compreensão da construção espacial e social brasileira e até mesmo mundial. GIULIANOTTI (2002. p. 08) atribui a importância dada ao futebol não apenas porque este é parte integrante de uma cultura, mas também porque “as características valorizadas no jogo nos dizem algo fundamental sobre as culturas em que ele é praticado.”
No Brasil, é atribuído ao futebol um importante lugar na constituição de uma cultura nacional, bem como no estabelecimento de uma suposta identidade nacional. BELLOS aponta o futebol como “o símbolo mais forte da identidade brasileira” e “o meio mais eficiente de se integrar à sociedade brasileira” (BELLOS, 2003, p. 09-10). Esta condição apontada por BELLOS exprime a importância que possui o futebol para o brasileiro, pois faz parte de sua vida cotidiana e de suas relações sociais. Roberto DAMATTA (1984, p. 17) afirma que “a construção de uma identidade social, então, como a construção de uma sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões”. No Brasil, o futebol é uma destas afirmativas. Para TOLEDO (2000, p. 08), o futebol é “uma manifestação cultural que revela nosso jeito, malícia, alegria ou ginga, o futebol protagonizou os contornos de um processo de identificação construído e engendrado por esses diferentes agentes sociais em interação”.
O futebol passou então a receber uma atenção especial de toda sociedade brasileira, pois além de ser um meio de manifestar sua cultura era uma forma simbólica de construção de uma suposta identidade nacional e da própria cultura brasileira manifestada ali. GIULIANOTTI (2002, p. 08) aponta o futebol como elemento central em diversas culturas: “sua centralidade cultural, na maior parte das sociedades, significa que o futebol tem uma importância política e simbólica profunda, já que o jogo pode contribuir fundamentalmente para as ações sociais, filosofias práticas e identidades culturais de muitos e muitos povos”.
Inclusive, o futebol foi altamente utilizado como instrumento político de legitimação não apenas de uma nação, mas também de regimes, principalmente ditatoriais. Este é o caso da utilização das seleções nacionais e clubes pelos governos de Mussolini, Hitler, Videla, Franco e de muitos governantes brasileiros (Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, João Goulart, os militares, entre outros). No Brasil, a expressão deste uso político do futebol pode ser visto na construção de enormes estádios pelo país, com intuito de reunir as massas para o espetáculo futebolístico, que muitas vezes era permeado por elementos políticos (HELAL, 1997).
No início dos anos 70 foram construídos vários estádios com capacidade para mais de 70 mil pessoas e alguns inclusive com capacidade para mais de 100 mil pessoas, como por exemplo o Morumbi, em São Paulo, o Rei Pelé, em Maceió, e o Castelão,no Ceará. Nessa época, o país, sob regime militar, atravessava um período de otimismo econômico que ficou conhecido como o “milagre brasileiro”. A propaganda oficial, estimulando o ufanismo, falava em “País do Futuro”, “Ame-o ou Deixe-o” e “Brasil Grande”, e o futebol, devido a sua expressiva popularidade, atraía o interesse do governo em tornar eficazes as suas mensagens. Este fato, somado ao sucesso do futebol brasileiro nos anos 60, encorajou a construção de grandes estádios por todos o país (HELAL, 1997, p. 52).
As Copas do Mundo são os pontos máximos de identificação nacional em torno do futebol. Desta forma, nestes períodos o uso político do futebol é mais visível, principalmente quando a Seleção consegue êxito: “para os ligados mais diretamente ao governo, repetir o discurso oficial era fácil, uma vez que bastava relacionar o desempenho da seleção ao momento de euforia econômica que se convencionou chamar de Milagre” (AGOSTINO, 2002, p. 162). Tal citação expressa como o governo brasileiro soube aproveitar a vitória na Copa de 1970, mesclando propagandas da própria Seleção Brasileira com propagandas do Regime Militar. O futebol, além de manifestar uma cultura nacional, também afirma culturas locais. Esta cultura local é manifestada, principalmente, através dos clubes e das rivalidades:
Ao mesmo tempo que o nacionalismo do futebol emerge periodicamente nos eventos e torneios internacionais, são interesses locais e municipais que seguram o jogo no nível básico. As lealdades diárias de torcedores e jogadores tendem a ser concedidas a clubes individuais muito mais do que as nações. No âmbito do clube, encontramos importantes reflexões simbólicas do período moderno inicial, industrial, urbano, em que o futebol emergiu como esporte nacional, tanto no velho quanto no novo mundo (GIULIANOTTI, 2002, p. 53-54).
Portanto, a constituição do futebol como elemento fundamental na cultura e sociedade brasileiras não se dá apenas no âmbito nacional, mais especificamente no que diz respeito à Seleção Brasileira. Os clubes têm papel essencial na afirmação do futebol nas sociedades locais. O futebol ocupa lugar central na sociedade e cultura brasileiras, sendo possível, então, afirmar que possui uma instância própria da espacialidade: o espaço de representação do futebol. A seguir será apresentado este conceito, que é muito rico para a apreensão das relações espaciais do futebol, não sendo, entretanto, a única maneira de fazê-lo. A diversidade de abordagens é extremamente positiva para se estudar o futebol sob o olhar geográfico, pois as possibilidades são inúmeras. Desta maneira, não é possível restringir o estudo do futebol apenas à abordagem cultural em geografia, mas também estender esta apreensão a outras perspectivas, tais como a da Geografia Social.
ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
As representações sociais são formas de conhecimento produzidas no cotidiano (MOSCOVICI, 2003). Elas são criadas, circulam, se modificam e morrem no dia-a-dia dos indivíduos. Assim, o conhecimento formulado no cotidiano do futebol se dá através de representações sociais, formuladas pelos diferentes atores sócio-espaciais do futebol. Elas devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que se sabe. Reproduzem o mundo de forma significativa, pois cada representação é acompanhada de uma imagem e de uma significação simbólica. As representações sociais são a forma pela qual as pessoas compreendem a realidade, sendo sua finalidade “tornar familiar algo não-familiar, ou a própria não familiaridade” (MOSCOVICI, 2003, p. 54).
É possível dizer que o futebol também constitui um espaço próprio, no qual se relacionam os atores sócio-espaciais. Este instância da espacialidade é o espaço de representação do futebol. Nele os indivíduos produzem territorialidades próprias e se apropriam de elementos simbólicos. O espaço de representação do futebol tem grande importância na vida dos brasileiros, que manifestam através do futebol sua cultura. O conceito de espaço de representação do futebol deriva das concepções sobre o espaço de representação.
Este é uma instância da espacialidade que transcende o espaço físico e permite que seus objetos recebam valores simbólicos (LEFÉBVRE, 1991). É um espaço simbólico que interage com as outras instâncias da espacialidade: a prática espacial e a representação do espaço. Nele se relacionam o real e o imaginário e se expressa o cotidiano (GIL FILHO, 2003).
LEFÉBVRE (1991) defende a idéia de que o espaço não é algo já dado, mas sim produzido. Atribui grande importância à organização espacial como produto social. Em “The Production of Space” (1991), LEFÉBVRE apresenta uma discussão sobre o espaço social, sendo ponto fundamental de tal debate a divisão do espaço em três componentes coexistentes. O espaço de representação é um destes componentes, que formam o que SOJA (1996), ao analisar a obra deste autor, chama de trialética do espaço. Esta tríade é formada pelo: espaço percebido – o espaço das práticas sociais (spatial practice), das relações materiais da espacialidade social; espaço concebido (representations of space) – é o espaço das instituições, onde ocorrem as representações do espaço produzidas pelas relações de poder, que influenciam a percepção espacial; e o espaço vivido (representational spaces) – que é o espaço de representação, no qual o ser humano se auto-representa a fim de buscar seu prazer e autenticidade, esquivando-se do espaço concebido. O espaço de representação é simbólico. Nele os significados atribuídos aos objetos podem ser modificados em relação ao espaço físico. Geralmente, estes símbolos e signos fazem parte de um sistema mais ou menos coerente. LEFÉBVRE escreve sobre o espaço de representação: Space as directly lived through its associated images and symbols, and hence the space of ‘inhabitants’ and ‘users’, but also of some artists and perhaps of those, such as a few writers and philosophers, who describe and aspire to do no more than describe. This is the dominated – and hence passively experienced – space which the imagination seeks to change and appropriate. It overlays physical space, making symbolic use of its objects. Thus representational spaces may be said, though again with certain exceptions, to tend towards more or less coherent systems of non-verbal symbols and signs (LEFÉBVRE, 1991, p. 39) SOJA faz uma leitura da obra de LEFÉBVRE em seu livro “Thirdspace” (1996). Nele, o autor procura apresentar as principais formulações do filósofo francês e, a partir delas, realizar suas próprias. Ao falar do espaço de representação, SOJA o atribui a condição de conter em seu interior tanto o espaço real quanto o imaginário, simultaneamente: “Combining the real and the imagined, things and thought on equal terms, or at least not privileging one over the other a priori” (SOJA, 1996, p. 68).
Segundo Sylvio Fausto GIL FILHO (2003), o espaço de representação passa pelo espaço visível, mas é simbólico, tendo o atributo de projetar o ser no mundo. É através dele que o sujeito se contextualiza no mundo, se articulando com o espaço da prática social e suas relações materiais. GIL FILHO realiza uma proposta epistemológica para o uso do espaço de representação como conceito chave para estudos da geografia cultural. Para ele: O espaço de representação é o reino da esfera consensual, e a expressão da esfera retificada da consciência coletiva, o momento em que o atributo de ser uma coisa se torna típica da realidade objetiva. Sua prática cotidiana é a própria representação, e sua expressão é o condicionamento do poder exercido. O espaço de representação é um espaço vivo com ligações culturais, lócus da ação e das situações vivenciadas. É relacional em percepção, diferencialmente qualitativo e dinâmico e de natureza simbólica (GIL FILHO, 2003, p. 5). A categoria espaço de representação, conforme apresentado, é capaz de sustentar a teoria das representações sociais em uma perspectiva geográfica. Assim, contribui para que a abordagem cultural em geografia ganhe fôlego a partir da perspectiva da realização de um diálogo com a teoria das representações sociais. Deste modo, a cultura passa a exercer uma função norteadora, possibilitando que os trabalhos em geografia cultural se fundamentem na teoria das representações sociais e utilizem o espaço de representação como conceito chave. O espaço de representação se estrutura através de círculos que interagem entre si, formando complexas relações. Há o círculo dos reinos, das categorias de mediação e das categoriais centrais. Os reinos se manifestam enquanto representação social, já as categorias centrais, através de sua interação, produzem o conceito de espaço de representação. Elas se expressam através do círculo das categorias de mediação.
A partir do redimensionamento do espaço de representação realizado por GIL FILHO(2003) – em seus estudos sobre geografia da religião – foi desenvolvida a estruturação do espaço de representação do futebol. O espaço de representação do futebol se divide em três elementos das categorias centrais: o poder, o fato futebolístico e a prática social do futebol.
Estas três categoriais centrais se relacionam com os três reinos (da política institucional, da paixão/afetividade e do ethos futebolísticos) através das quatro seguintes categoriais de mediação: o mito moderno, o discurso, a identidade futebolística e o símbolo. A inter-relação de todos estes elementos constitui o espaço de representação do futebol (FIGURA 01).
ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
O futebol apresenta uma prática social própria, porém altamente articulada com a prática social cotidiana (no Brasil, ambas são dissociáveis). Tal articulação se dá de maneira mais íntima em sociedades em que o futebol ocupa um espaço importante como elemento sócio-cultural e de sociabilização. A mobilização social em torno da Seleção Brasileira em época de Copa do Mundo, sobretudo, é um exemplo desta articulação. Dentro do contexto do espaço de representação do futebol, prática social do futebol são todas e quaisquer relações sociais produzidas pelo futebol. Vai desde o ir ao estádio, o jogar, o torcer, até os comentários produzidos pela partida e seus bastidores. São nas relações cotidianas que circulam, são criadas e modificadas as representações sociais. Segundo BERGER e LUCKMANN (1999), a realidade social é construída objetiva e subjetivamente pelos indivíduos a partir de suas relações cotidianas. Como o futebol faz parte desta realidade, ele pode ser apreendido como, ao mesmo tempo, um produtor e um produto de representações sociais; através das quais o mundo cotidiano apresenta-se como coerente e dotado de sentido para os indivíduos.
A prática social do futebol se organiza em torno do “aqui e agora”, do face a face – que se constitui a base da interação social. Portanto, o encontro de torcedores no estádio ou em espaços públicos é a situação mais propícia para o surgimento, modificações e circulações de representações sociais. Mas a realidade social pode ser apreendida também através de mediações, ou seja, o indivíduo não precisa estar presente para ter contato com ela. Ele pode o fazer através da mídia, nas transmissões dos jogos. O fato futebolístico pode ser apontado como elemento original do espaço de representação do futebol, pois sem ele os outros não fariam sentido. Ele é o ritual, o espetáculo em si, a partida e os eventos que a circundam. Ele não se limita ao esporte profissional, mas se estende à prática lúdica do jogo. É a partir do fato futebolístico que os torcedores formulam as representações sociais, que os diferentes atores do espaço de representação do futebol se relacionam e produzem seus discursos, que os símbolos e mitos são gerados, enfim, que toda a malha de significados que permeia o futebol é criada.
O poder é fundamental na constituição do espaço de representação do futebol, pois ele permeia todas as relações (RAFFESTIN, 1993). Ele se materializa nas relações entre os diferentes atores sócio-espaciais, formando representações sociais, símbolos, mitos modernos, valores, discursos, etc. A existência do poder pressupõe uma relação desigual, uma relação de força, entre os indivíduos ou grupos que participam dela. O que não significa que o poder é algo exclusivamente maléfico e repressivo. O poder não é algo que é possuído, mas algo que é exercido. Não há aqueles que detêm e aqueles que não detêm o poder. Todos os indivíduos exercem e sofrem ações do poder (FOUCAULT, 1998). Os diferentes atores sócio-espaciais interagem entre si formando uma rede de relações sócio-espaciais a partir do futebol. Nesta rede, o poder é exercido de diversas maneiras entre as instituições e os atores sócio-espaciais.
As relações de poder produzem representações sociais que influenciam na maneira de se jogar, torcer, entender, de se relacionar com o futebol. As categoriais centrais, em interação, produzem símbolos, mitos modernos, discursos e identidades futebolísticas. Tais elementos são fundamentais, pois são eles que vão produzir sentido e perpetuar o universo simbólico do futebol. Eles surgem e circulam como representações sociais nas relações cotidianas produzidas pelo futebol. O discurso possui uma ligação íntima com o poder, pois é uma manifestação deste. Ele é produzido e circulado através de relações de poder, que por sua vez também dependem deste discurso para existir. O discurso pode ser entendido como a mediação entre fenômenos da realidade e o saber. Ele expressa este saber, uma construção de poder sobre fatos da realidade. Os discursos produzidos no espaço de representação do futebol estão ligados aos papéis dos atores sócioespaciais desta instância da espacialidade. Cada papel exige e produz uma certa prática discursiva. É certo que esta depende também do indivíduo que fala, mas é fundamental lembrar que este está investido de um cargo, que dentro da estrutura do futebol e das relações de poder às quais está exposto, exige certa regularidade discursiva.
Os símbolos estão presentes nos comportamentos, sentimentos, desejos e atos dos diversos atores sociais. Através deles é possível desvelar manifestações do inconsciente, os motivos das ações, descobrir os aspectos mais íntimos que motivam as diversas relações. Eles são todo e qualquer artefato ligado ao futebol, como as cores dos clubes, suas camisas, distintivos, bandeiras, mascotes, etc. O símbolo vai além do significado do objeto em questão, estendendo-se ao sujeito. Assim, os significados dos símbolos não são universais e intemporais, pois estes dependem da cultura na qual estão emersos, da época que se trata, dos atores sociais que se apropriam destes e das instituições que representam. Assim, o mesmo símbolo admite mais de uma significação, mais de uma interpretação; podem mudar de significado em relação de que se apropria deles. Estes elementos são fundamentais nas relações promovidas pelo futebol, pois são eles que dão significado ao espaço de representação do futebol. Os mitos estão inseridos no pensamento simbólico e seu entendimento passa pela compreensão dos ritos. CASSIRER (1992) atribui aos mitos a função de dar sentido à realidade. Desta maneira, são as referências do passado do esporte, dos clubes ou das seleções. Eles são construídos através da mitificação de jogadores, treinadores, entre outros atores desta instância da espacialidade. Eles afloram em épocas de dificuldades ou de conquistas, quando se remete ao passado. Os mitos modernos do futebol são construídos através dos tempos por seus feitos.
O processo de identificação se dá no cotidiano a partir da construção de significados com base em atributos culturais (CASTELLS, 2002). Os indivíduos criam identidades através do compartilhamento de representações sociais. Estas reagem à estrutura social, remodelando-a constantemente. Elas podem ser construídas através da história, geografia, instituições, fantasias, por relações de poder, entre outros fatores. Todavia, a identidade não passa apenas pelo processo de inclusão, mas também de exclusão – manifestado pela oposição ao outro a fim de promover o autoconhecimento. Fazer parte de um grupo é se opor a um antagônico. É através da identidade futebolística que os torcedores se “aglutinam” socialmente em torno de um clube. O compartilhamento de representações gera um sentimento de pertença formando-se, assim, as torcidas, que têm por característica a negação de outros clubes. Portanto, a identidade futebolística não se resume apenas a se identificar com um clube, mas também de negar os demais, principalmente os rivais.
Estas quatro últimas categorias apresentadas articulam os reinos. O reino da política institucional é aquele no qual as instituições futebolísticas interagem através de relações de poder. Tais relações são fundamentalmente políticas, pois é a partir delas que os indivíduos e grupos se diferenciam dos outros e que as organizações mantêm sua ordem interna. As instituições são construídas a partir de uma historicidade compartilhada. O mundo institucional precede o nascimento do indivíduo e permanecerá depois de sua morte. Elas têm histórias próprias, construídas por indivíduos em um processo social. Os clubes, federações e torcidas organizadas são alguns exemplos de instituições que constituem o espaço de representação do futebol. Este reino é fragmentado e desigual em suas relações entre os atores que o constituem. Assemelha-se ao universo retificado (MOSCOVICI, 2003).
Os valores produzidos pelas categorias centrais do espaço de representação do futebol se articulam no interior do reino do ethos futebolístico. Parte-se do pressuposto que o futebol produz e se estrutura através de uma série de valores, que podem ser antagônicos. Desta forma, as decisões tomadas no reino da política institucional, as manifestações de afetividade, as relações de poder, as representações sociais do futebol, etc. se articulam a partir de uma série de valores produzidos e modificados ao longo do tempo. Alguns valores produzidos pelo futebol e/ou contemplados por ele são o de profissionalismo, amadorismo, democracia social e racial, o da possibilidade de ascensão social, de identificação com a pátria, entre outros.
A afetividade é criada e manifestada a partir dos processos de socialização primária e secundária (BERGER; LUCKMANN, 1999). A socialização primária ocorre na infância, não apenas como um processo cognoscitivo, mas também tem como elemento fundamental as emoções. A criança se identifica com os significativos a sua volta, assimila os papéis e atitudes destes, e cria, assim, sua própria personalidade. Isto explica o fato da criança “herdar” dos pais a paixão por determinado clube. A socialização secundária é posterior a primária e depende desta. Ela é a interiorização de “submundos” institucionais. Esta interiorização é mais difícil do que a ocorrida no processo de socialização primária, pois agora o indivíduo já possui uma personalidade formada, ficando mais difícil o indivíduo trocar de clube quando mais velho. Além disto, este fato é socialmente condenável, sendo o indivíduo taxado de “vira casaca”. Nestes processos, não apenas os pais exercem influência, mas também os amigos e a própria mídia. O reino da afetividade é aquele no qual se articulam as diversas emoções em relação ao esporte, aos clubes, etc. As manifestações de afetividade levada ao extremo, de modo exaltado, serão chamadas aqui de paixão. Ela pode se manifestar de várias formas: pelos clubes, jogadores, etc. Além disto, a paixão pode desencadear outros sentimentos como o ódio por outros clubes ou seleções, entre outros. A paixão pelo clube passa pela negação dos demais. A paixão se manifesta nesta escolha e na defesa do clube, ou seja, no torcer. O torcedor não é completamente racional, não enxerga os fatos com imparcialidade, pois sua paixão o impede. Desta forma, rejeita tudo que não seja ligado ao seu clube, principalmente os outros times, pelos quais às vezes chega a cultivar ódio. As emoções permeiam todas as relações do espaço de representação do futebol de forma decisiva.
Em suma, o espaço de representação do futebol é a instância da espacialidade do futebol na vida dos indivíduos. Nele a experiência futebolística dos indivíduos é plena. Este espaço é concebido, construído, modificado e vivenciado nas relações cotidianas, através de representações sociais. No espaço de representação do futebol, os universos consensual e retificado se relacionam. Este espaço de representação do futebol ajuda os indivíduos a dar sentido a sua vida social, pois o futebol, no Brasil, extrapola seus significados esportivos, invadindo com enorme força o campo cultural e social, construindo paisagens, relações e símbolos. Tais elementos dizem muito sobre a cultura de uma determinada sociedade, pois são produtos de tal cultura. Assim sendo, o espaço de representação do futebol não é um conceito limitado exclusivamente para o estudo do futebol como esporte, mas como expressão social e cultural, podendo ser apropriado por qualquer estudo cujo objeto é a cultura e a sociedade em nível mundial, nacional, regional, estadual ou municipal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo procurou demonstrar a importância da apreensão do futebol pela ciência geográfica. O tema, muitas vezes negligenciado pela academia, merece maior atenção, pois é um elemento fundamental da cultura brasileira. O futebol transcende sua importância esportiva e tem importante papel social e espacial. Desta forma, o tema é pertinente não apenas para a abordagem cultural em geografia, mas como em outras perspectivas, como a Geografia Social, entre outras.
Uma interessante alternativa teórica para o estudo do futebol sob o olhar da Geografia é a do espaço de representação do futebol. Este conceito foi elaborado a partir de diversas formulações sobre o espaço de representação, como as de LEFÈBVRE (1991), SOJA (1996) e GIL FILHO (2003). Fundamentalmente, a prática social desta instância da espacialidade se dá no cotidiano. Mesmo assim, no espaço de representação do futebol os universos consensual e retificado coexistem. Esta prática está articulada com o fato futebolístico e ambos estão permeados pelas relações de poder. A interação destes elementos gera símbolos, mitos modernos, discursos e identidades futebolísticas, os quais se manifestam como representações sociais nos reinos da política institucional, ethos futebolístico e paixão/afetividade. No entanto, as possibilidades teóricas e metodológicas não se esgotam neste conceito.
Há um caminho muito longo a ser traçado, pois o futebol é um tema complexo, repleto de variáveis, nuances, peculiaridades locais, regionais e nacionais, que merecem ser estudas com maior atenção e afinco pela ciência geográfica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CASTELLS, M. O poder da identidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
CLAVAL, P.. A Geografia Cultural. Florianópolis: Editora da UFSC, 2001a.
DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
GIL FILHO, S. F. Espaço de representação: epistemologia e método. ANPEGE,
Florianópolis, 2003.
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GOMES, P. C. da C. Geografia e modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
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LEFÉBVRE, H. The production of space. Oxford: Blackwell, 1991.
MASCARENHAS, G. À Geografia dos Esportes: uma introdução. Scripta Nova – Revista
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MOSCOVICI, S. Representações sociais. Petrópolis: Vozes, 2003.
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TOLEDO, L. H. de. No país do futebol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
http://www.geografia.ufpr.br/neer/NEER-1/comunicacoes/fernando-gallego.pdf
FUTEBOL E MODERNIDADE NO BRASIL:
A GEOGRAFIA HISTÓRICA DE UMA INOVAÇÃO1
Gilmar Mascarenhas de Jesus (Brasil)
Professor Assistente do Dep. de Geografia
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Resumo
A introdução efetiva do futebol na vida urbana brasileira não obedeceu ao comando de um polo nacional indutor, mas se deu concomitantemente através de diferentes pontos do território, dada a existencia de uma estrutura espacial de base para o modelo agro-exportador. O ritmo de evolução, o significado e o alcance do futebol em cada uma das principais cidades brasileiras no início do século variou segundo condições locais. Este trabalho pretende expor e debater alguns aspectos geográficos presentes no advento do futebol no Brasil, considerando a base territorial um fator ativo na dinâmica social.
Unitermos: Modernidade Urbana. Estrutura Territorial. Futebol Brasileiro.
Abstract
The introduction of football in Brazilian urban life did not follow a ideal pattern of hierarchical diffusion. It happened simultaneously through different spots in the national territory, thanks to the spatial structure oriented by the agroexportation model. The rythm of evolution, the significance and the social dimension reached by football in each of the main Brazilian cities in the begining of this century corresponds to local differences. This paper aims at showing and debating some geographical features of the introduction of football in Brazil, considering the territorial framework as having an active role on the social process.
Key words: Urban Modernity. Territorial Structure. Brazilian Soccer.

Introdução
A ascensão da figura do sportman na segunda metade do século passado está inserida num contexto mais amplo, no qual um dos aspectos centrais é a configuração de um ambiente urbano inédito na história das cidades. Um novo modo de vida vai se introduzindo abrupta e festivamente nas principais capitais européias, e Marshall Berman (1986:18) o definiu como calcado na exacerbação dos prazeres mundanos, atmosfera de agitação e turbulência, aturdimento psíquico e embriaguez, expansão das possibilidades de experiência e destruição de barreiras morais.
A industrialização e a revolução nos transportes (movida particularmente pela expansão das ferrovias) impulsionaram sobremaneira o crescimento das cidades. Mas o principal efeito destes vetores talvez não fora a tão propalada explosão urbana, refletida em gráficos dramáticos (para alguns, apocalípticos) de curvas exponenciais de crescimento. Uma importante transformação se deu no plano qualitativo, na profunda alteração dos quadros de existência no âmbito da vida social urbana. Neste ambiente propenso em demasia às novas experiências é que os exercícios corporais em geral e os esportes em particular tiveram seu impulso definitivo, imprimindo à vida cotidiana ingredientes e marcas indeléveis. Tal cenário é definido por muitos autores como modernidade urbana.
Não vamos nos alongar sobre um debate amplo e já tão bem delineado (por vias diversas) por autores como ELIAS (1985), DUNNING & SHEARD (1979), BARTH (1980), HOBSBAWN (1984), entre outros. O que nos interessa neste momento é refletir sobre a repercussão nos países periféricos deste movimento oriundo do centro do capitalismo mundial. No Brasil, a forte conexão com o capital industrial e mercantil inglês viabilizou entre nós a introdução de substanciais alterações comportamentais (FREYRE, 1948, GRAHAM, 1973; MANCHESTER, 1973). Dentre elas a adesão à formação de clubes para a prática esportiva, tomados como mais uma importante contribuição britânica civilizadora.
É fato notório que os ingleses introduziram o futebol no Brasil através das zonas portuárias e das suas empresas aqui instaladas em diversos ramos (comércio, construção de ferrovias e outras infra-estruturas, indústria, etc). Entretanto, a presença inglesa, por si só, não explica a adesão a novas formas de comportamento social. É preciso que haja um ambiente local aberto e propício a transformações. O capital inglês se fez presente em inúmeros pontos do território brasileiro, sem contudo promover simultaneamente o mesmo quadro de efeitos. O futebol, enquanto novidade do mundo dito civilizado, atingiu concomitantemente diversas cidades brasileiras. Entretanto, somente se incorporou efetivamente ao cotidiano urbano nos locais que preenchiam determinados requisitos, que conformavam um ambiente que pretendemos denominar, apesar da forçosa simplificação, de modernidade urbana. O objetivo deste trabalho é mensurar e qualificar o quanto possível o papel de nossa base territorial urbana no processo de introdução e difusão de uma inovação, o futebol. A literatura acadêmica existente, além de muito reduzida (embora atualmente em fase de expansão), relega completamente o contexto geográfico deste movimento. Pretendemos demonstrar que a base territorial, com sua profunda diferenciação interna, condicionou o processo de introdução e consolidação do futebol como espetáculo de entretenimento urbano.
Comparamos, neste sentido, os estágios iniciais do futebol em algumas das principais cidades brasileiras no início do século: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Belém. Cada cidade, dotada de uma dinâmica e ritmo próprios, imprimiu ao futebol suas marcas características. O esporte em si, era o mesmo, mas o significado social e a magnitude alcançada variaram de lugar para lugar, e não por razões aleatórias.
Algumas Dimensões da Geografia do Futebol no Brasil
Para aquilatar um pouco da importancia e ubiquidade que o futebol alcançou no Brasil basta percorrer breve e panoramicamente o vasto território nacional. Em cada pequena aglomeração humana, mesmo nas mais desabitadas regiões, há dois objetos na paisagem a caracterizar o nosso ecúmeno: uma pequena igreja e um campinho de futebol. Costuma-se dizer que a igreja pode até faltar (pois haverá sempre aquela outra do povoado mais próximo), mas o campinho, não.
Não há como ignorar a presença impregnante do futebol no cotidiano de nosso país. Dos imensos estádios espalhados pelas cidades de médio e grande porte, que vibram solidariamente às tardes de domingo, às conversas na mesa do botequim, passando pelo radinho de pilha aos ouvidos do lavrador distante, e derramando-se espaçosamente pelas páginas e imagens da grande imprensa, o Brasil respira o futebol. O calendário futebolístico demarca os tempos e os horizontes da vida cotidiana. E assim a metrópole se faz efetivamente presente e pulsante em cada dobra discreta do imenso território: ela é o palco dos grandes clubes e dos ídolos nacionais (JESUS, 1996).
Obviamente, a pujança do futebol brasileiro enquanto fato social, é uma construção histórica. A montagem deste amplo cenário é fruto dos processos articulados de formação de uma nação (e toda a sua carga simbólica) e de estruturação de um território em acelerada urbanização. Incialmente funcionando como apenas mais um modismo importado dos ingleses, prática restrita aos poucos jovens da elite republicana, o futebol se popularizou rapidamente. Sua difusão espacial expressiva permitiu que se tornasse uma poderosa instituição nacional (CALDAS, 1990; WITTER & MEIHY, 1979).
Não obstante tão evidente expressão espacial desta realidade, não existe no Brasil qualquer esboço de uma geografia do futebol. As raras referências existentes não passam de breves comentários, ainda que valiosos, como em SEABRA (1987). Tal omissão adquire contornos inquietantes quando se toma em conta, por um lado, a pujança do futebol no País, e por outro, a existência de várias experiências bem sucedidas de geógrafos no exterior (BALE, 1982, 1989, 1993; ROONEY, 1974; AUGUSTIN, 1995 e GASPAR, 1982).
As lacunas não se esgotam no âmbito da geografia. Majoritariamente, a historiografia do futebol brasileiro se restringe à escala local. Mesmo autores que se propõem a operar com a escala nacional (MAZZONI, 1950; e RODRIGUES FILHO, 1994, para citar apenas os clássicos), acabam se restringindo ao tradicional eixo Rio-São Paulo. A história do futebol nas demais cidades (à exceção de Porto Alegre) permanece pouco documentada e sobretudo pouco conhecida. Mesmo Janet Lever (1983), que indubitavelmente maneja uma área geograficamente mais extensa, deixa enormes lacunas.
Para realçar a necessidade de se edificar uma abordagem geográfica, cumpre lembrar que a difusão do futebol no Brasil, como qualquer outro movimento no interior de uma determinada sociedade, não se realiza de forma independente da base territorial. O espaço geográfico não é apenas o palco passivo do desenrolar dos fatos históricos. Pelo contrário, ele joga papel crucial no devir das estruturas socias. Ele é, como diz Milton SANTOS (1996:257), ao mesmo tempo, uma condição para a ação, uma estrutura de controle, um limite à ação, um convite à ação. Resulta desta premissa nossa intenção em examinar a configuração territorial da rede urbana brasileira no processo de introdução do futebol em nossa vida cotidiana.
Lecturas: Educación Física y Deportes.
Año 3, Nº 10. Buenos Aires. Mayo 1998
http://www.efdeportes.com
http://www.efdeportes.com/efd10/geo.htm
http://www.monografias.brasilescola.com/geografia/geografia-futebolesporte-como-produtor-novosespacos-.htm
www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/article/download/.../88
http://esportes.r7.com/futebol/noticias/futebol-deseduca-quando-o-assunto-e-geografia-20091212.html

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