Pense, no formato de um campo de futebol, nas chamadas quatro linhas do gramado. Veja como os jogadores sabem bastante de matemática e não percebem!
1) Qual é a forma geométrica do espaço gramado em que os 22 jogadores disputam qual a equipe que faz mais gols? Resposta: a figura formada pelos seus lados externos é um retângulo.
2) Quais as medidas desse retângulo, se o campo de futebol for “oficial”? 105m x 68 m.
3) O que é exatamente um retângulo? É uma figura geométrica composta por quatro linhas, todas as linhas se encontram formando um ângulo reto (90º graus), cada duas das retas são paralelas e iguais, porém, com medidas diferentes dos outros dois lados também paralelos.
4) O que é um ângulo? É o canto da figura é o espaço em que o jogador cobra o escanteio. A medida desse canto, que podemos medir e forma 90º(graus).
5) Analise melhor a figura acima e conclua: existe, alguma matemática no futebol?
6) Apenas essa matemática mostrada na figura o jogador precisa saber?
7) Qual o formato da bola? Uma figura geométrica com nome de esfera.
http://www.google.com.br/imgres?
8) Você já chegou a perguntar, por que a bola é uma esfera ao invés de um cubo? Claro que a esfera, não tem perigo de machucar o pé do jogador. Portanto, o jogador podendo imprimir mais força no pé, chutando a bola,...
9) Por que será que tantos jogadores, perdem tantos gols, às vezes, aparentemente muito fáceis?
10) Há o assunto na matemática: proporcionalidade, você conhece?
11) De que forma a proporcionalidade, está presente no futebol?
12) A força aplicada pelo jogador quando chuta uma bola, faz com que a bola siga com maior velocidade até o gol? Isso é bom para o atacante e ruim para o goleiro? Tem matemática nesse ato?
13) O pé do jogador, a bola e as traves, podem ser relacionadas, matematicamente de alguma forma?
14) Quando chutamos uma bola, podemos chutar com o pé: “de bico da chuteira”, parte superior do pé ou lados do pé (interno ou externo). Qual a forma mais eficiente?
15) Futebol significa: jogar bola com o pé. Mas, as regras permitem também que a jogada seja feita com outras partes do corpo, exceto mãos e braços. Vemos muitos gols “de cabeça”. Nesses casos consideremos: a trajetória da bola, a cabeça do jogador e as traves do gol. Há relação matemática nesse caso?
16) Antes de entrarmos das quatro linhas do gramado, o craque de futebol necessita de matemática? Todo jogador tem um contrato com o clube. As relações de trabalho não são regulamentadas pela legislação trabalhista (a carteira e trabalho), o trabalho é realizado fora dos horários habituais da maioria das pessoas e nos finais de semana, inclusive feriados. No entanto, muitos craques recebem somas vultosas, se comparando com os salários das pessoas comuns. Portanto, o craque da bola necessita saber administrar os seus rendimentos, saber investir para que após o encerramento de sua carreira de sucesso, tenha uma aposentadoria digna e tranqüila. Principalmente, considerando-se que o sucesso é passageiro e, portanto temporário, durando no máximo 20 anos quando o craque é realmente bem sucedido.
Portanto, o verdadeiro craque também é um bom administrador dos seus próprios bens, caso não o seja, terá de contratar um advogado, caso contrário, correrá o risco de que o seu “empresário” não lhe pague o suficiente ou “passe-lhe a perna”.
17) Saber gastar, saber viver a vida, saber os limites, tem a ver com matemática?
18) Todo garoto ou garota que desejar ser craque conseguirá o seu objetivo? Vejamos, do ponto de vista matemático, seguindo a tabela abaixo:
Local
População
Quantidade de jogadores empregados *
Porcentagem sobre a população
craques
%
A probabilidade de um garoto chegar ao sucesso
Cidade São Paulo 11.244.369 200 0,001778 1,8 para cada 100mil garotos
Estado SP 41.252.160 800 0,001939 1,9 para cada 100mil
Estado RJ 15.993.583 200 0,001250 1,25 para cada 100mil
Estado MG 19.595.309 80 0,000408 4 para cada 1 milhão
Estado PR 10.439.601 100 0,000958 9,5 para cada 1 milhão
Estado RS 10.695.532 80 0,000748 7.5 para cada 1 milhão
Brasil 195 423 252 2 000 0,001023 1 para cada 100 mil
Terra
6 500 000 000 **
1,5 para cada 100 milhões.
*Quantidade estimada
** Mercado estimado em 1 000 craques de futebol
Referências: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1
http://www.ibge.gov.br/estadosat/
http://www.ibge.gov.br/paisesat/
http://www.portaljapao.org.br/modules/news/article.php?storyid=53
19) Para facilitar a comparação, da dificuldade de um aspirante atingir o objetivo de ser um profissional, compare a tabela acima com a proporção de um jogador de uma das loterias da caixa, ganhar uma fortuna. Analisando essas informações, o que você pode concluir?
20) Nosso objetivo é que o sonho deve estar em primeiro lugar. Vá, em busca do seu sonho. Nunca desista! Lute o quanto puder! Porém, “nunca coloque todos os ovos numa mesma cesta”. Por esse ângulo, é que você, a escola e seus professores, estarão irmanados. Aproveite e veja novamente a foto inicial:
Edição 192 | 05/2006
O campo de futebol e a tabela rendem aulas de geometria e de probabilidades
Foto: Gustavo Duarte
Boa parte da turma nem imagina quanta Matemática existe nos jogos de futebol. Ela está presente na elaboração das tabelas de jogos, na geometria do campo e nas diversas estatísticas, que permitem avaliar o desempenho de cada time - média de gols, número de passes errados ou certos etc. Sem perceber, os jogadores fazem cálculos mentais para estimar a distância em que está o companheiro e a força que precisa ter o chute para a bola alcançá-lo.
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Os técnicos, por sua vez, definem táticas em que estabelecem áreas no gramado para cada membro do time atacar ou defender. Enfim, há inúmeras possibilidades de aproveitamento dos jogos da copa. O plano de aula a seguir concentra-se em duas alternativas de exploração desse tema: trabalhar figuras geométricas e áreas e também probabilidade.
Plano de aula
De olho no campo e na tabela
1. Comece a aula propondo aos alunos um exercício de cálculo de áreas no campo apresentando a reprodução do campo de futebol acima.
a. Peça que a classe identifique as figuras geométricas pintadas no gramado - retângulos, circunferências, semicircunferências e quadrantes.
b. Com o giz, desenhe no chão um quadrado de 1 metro de lado. Pergunte quantos iguais a esse, dispostos em seqüência, são necessários para completar a linha lateral e a linha de fundo. Conhecendo o comprimento e a largura do espaço de jogo, os alunos perceberão que as respostas são 105 e 68, respectivamente. Assim, eles podem determinar também a área do campo, bastando calcular o total de quadrados de 1 metro que cabem dentro dele (ou simplesmente multiplicar o número de quadrados da linha lateral pelo da linha de fundo).
c. Peça também que eles calculem as áreas da pequena e da grande área, mas desta vez utilizando a fórmula do comprimento vezes largura. Com os resultados, eles podem estimar a densidade (concentração) de jogadores por metro quadrado em determinados momentos do jogo.
2. A tabela dos jogos da copa serve de base para exercícios de organização tabular. Explique que 32 países estão distribuídos em oito chaves nomeadas de A a H. Leve a turma a contar o total de jogos em cada grupo na primeira fase e proponha o levantamento de possibilidades.Qual a chance de a seleção brasileira passar para as oitavas-de-final, mesmo perdendo duas das três partidas da primeira fase? Explique que, pelos critérios da Fifa, só existe uma chance: um dos times da chave teria de ganhar todos os jogos e os outros dois teriam de vencer só um cada um. Nesse caso, teríamos de superá-los no critério do saldo de gols (o número de gols marcados menos o de gols sofridos).
CONSULTORIA
Luiz Carlos Pizarro Marin, consultor de Matemática, de São Paulo
A rapidez da bola
Depois de cabeceada, a bola pode se deslocar a uma velocidade de até 60 quilômetros por hora.
O gol mais rápido da história das copas foi marcado pela Turquia contra a Coréia do Sul, em 2002. O jogador Hakan Suzun fez a rede balançar aos 11 segundos do primeiro tempo.
Um chute forte, de 90 quilômetros por hora, percorre os 11 metros entre a marca do pênalti e o goleiro em 440 milésimos de segundo.
Quer saber mais?
21. Para calcularmos o comprimento da circunferência, a área da supefície ou o volume de uma bola, necessitamos conhecer um número e um símbolo matemático Pí. Valor aproximado: 3,14! (! aqui, não é um fatorial.)
Mas, de onde acharam essa constante tão conhecida, e tão importante na Engenharia e Ciência da Computação. Vasculhando a internet recentemente encontrei uma notícia que me deixou curioso acerca deste assunto, fui pesquisar.
A NOTÍCIA: “PI recalculado tem 2,7 trilhões de dígitos.”
Um cientista “louco” Fabrice Bellard, que usou um “desktop” para recalcular o PI encontrou um valor com 123 bilhões de dígitos a mais do que a anterior. Tal feito durou 131 dias, incluindo a checagem dos dados.
Em 02 de agosto de 2010, temos completado com êxito o cálculo do Pi em 5,000,000,000,000 casas decimais em um único computador em tempo recorde.
This is 2.3 trillion digits more than the previous world record by Fabrice Bellard (December 2009). Esta é 2300000000000 dígitos mais do que o recorde anterior por Fabrice Bellard (Dezembro 2009). Therefore, we are declaring 5 trillion digits as the new world record. Portanto, estamos declarando 5 trillion dígitos que o novo recorde mundial. It was done using a program created by Alexander Yee and a desktop computer built by Shigeru Kondo. Foi feito usando um programa criado por Alexander Yee e um computador desktop construído por Shigeru Kondo.
A small portion of the computed digits are shown in the table below: Uma pequena parte dos dígitos calculados são mostrados na tabela abaixo:
3. 3.
1415926535 8979323846 2643383279 5028841971 6939937510 : 50 1415926535 8979323846 2643383279 5028841971 6939937510: 50
5820974944 5923078164 0628620899 8628034825 3421170679 : 100 5820974944 5923078164 0628620899 8628034825 3421170679: 100
2962457053 9070959679 6673211870 6342459769 2128529850 : 999,999,999,950 2962457053 9070959679 6673211870 6342459769 2128529850: 999.999.999.950
2976735807 0882130902 2460461146 5810642210 6680122702 : 1,000,000,000,000 2976735807 0882130902 2460461146 5810642210 6680122702: 1.000.000.000.000
9354516713 6069123212 1286195062 3408400370 1793492657 : 1,999,999,999,950 9354516713 6069123212 1286195062 3408400370 1793492657: 1.999.999.999.950
8386341797 9368318191 5708299469 1313121384 3887908330 : 2,000,000,000,000 8386341797 9368318191 5708299469 1313121384 3887908330: 2.000.000.000.000
3840840269 5893047555 2627475826 8598006396 3215856883 : 2,699,999,989,950 3840840269 5893047555 2627475826 8598006396 3215856883: 2.699.999.989.950
9256371619 3901058063 3448436720 6294374587 7597230153 : 2,699,999,990,000 9256371619 3901058063 3448436720 6294374587 7597230153: 2.699.999.990.000
8012497961 5892988915 6174704230 3863302264 3931687863 : 2,699,999,990,050 8012497961 5892988915 6174704230 3863302264 3931687863: 2.699.999.990.050
3126006397 8582637253 6739664083 9716870851 0983536511 : 2,699,999,990,100 3126006397 8582637253 6739664083 9716870851 0983536511: 2.699.999.990.100
5628334110 5221005309 8638608325 4364661745 5833914321 : 2,999,999,999,950 5628334110 5221005309 8638608325 4364661745 5833914321: 2.999.999.999.950
9150024270 6285788691 0228572752 8179710957 7137931530 : 3,000,000,000,000 9150024270 6285788691 0228572752 8179710957 7137931530: 3.000.000.000.000
5209957313 0955102183 1080456596 1489168093 0578494464 : 3,999,999,999,950 5209957313 0955102183 1080456596 1489168093 0578494464: 3.999.999.999.950
3638467628 3610607856 5071920145 5255995193 8577295739 : 4,000,000,000,000 3638467628 3610607856 5071920145 5255995193 8577295739: 4.000.000.000.000
2597691971 6538537682 7963082950 0909387733 3987211875 : 4,999,999,999,950 2597691971 6538537682 7963082950 0909387733 3987211875: 4.999.999.999.950
6399906735 0873400641 7497120374 4023826421 9484283852 : 5,000,000,000,000 6399906735 0873400641 7497120374 4023826421 9484283852: 5.000.000.000.000
Bibliografia
Futebol - Regras e Comentários, Orlando Duarte, 360 págs., Ed. Senac, tel. (11) 3284-422, 50 reais
Internet
http://obaricentrodamente.blogspot.com/2010/12/5-trilhoes-de-digitos-de-pi-novo.html
http://bellard.org
http://en.wikipedia.org/wiki/Fabrice_Bellard
A tabela da Copa pode ser encontrada em www.abknet.de/copatabela.htm
E o site www.clicrbs.com.br traz animações virtuais das principais táticas adotadas no futebol. Escolha "Rio Grande do Sul", entre em "Esportes", "Paixão pelo Futebol" e "Táticas". Lá, é possível observar a área que cada jogador cobre no ataque e na defesa.
http://revistaescola.abril.com.br/matematica/pratica-pedagogica/matematica-parte-reportagem-capa-copa-mundo-427101.shtml
Podemos aprender a jogar melhor futebol na escolinha?
COMO SE TORNAR UM ALUNO?
O aluno deverá fazer uma aula experimental, muito importante para conhecimento da escola e adaptação à aula. Para isto, basta preencher um cadastro.
Após a aula experimental o aluno deverá providenciar os documentos abaixo para concluir seu cadastro:
(Clique na imagem para ampliar)
• RG ou certidão de nascimento
• Comprovante de residência
Reproduzo abaixo a tabela de preços de uma escola de futebol em São Paulo (janeiro/2011)
• Mensalidade: *
R$70,00 ( 1 X p/ semana)
R$100,00 ( 2 X p/ semana)
R$150,00 (3 X p/ semana)
R$170,00 (4 X p/ semana)
(Desconto especial para primos e irmãos)
Carteirinha:R$5,00
*O aluno que pagar a mensalidade até o dia 10 de cada mês, terá um desconto no valor da mensalidade.
• Uniforme Exclusivo:
R$ 80,00 (CAMISETA, CALÇÃO E MEIÃO)
* USO OBRIGATÓRIO DE CANELEIRA
http://www.paulistadesociety.com.br/corinthians/como_seraluno.htm
http://www.efdeportes.com/efd40/fcienc.htm
http://www.ufv.br/des/futebol/artigos/Futebol%20e%20ciência.pdf
Estou pesquisando para descobrir os conteúdos ministrados na escolinha de futebol, mas, até o presente, não encontrei.
PESQUISA I
Público pesquisado: responsáveis pelas escolinhas de futebol
Prezado Coordenador,
Agradeço desde já por responder as perguntas abaixo. Esclareço que o objetivo desta é apenas educacional, visto que sou um professor de escola pública e pesquisador da área de matemática.
1) O aluno recebe conteúdo teórico, quando matriculado e freqüentando a escolinha?
2) Se recebe, quais os conteúdos teóricos ministrados?
3) Os seus alunos são orientados e/ou estimulados de alguma forma, a continuar os estudos regulares, inclusive quando tudo indica que terá futuro como craque do futebol?
4) Será possível o acesso ao plano de aula dos conteúdos práticos (táticas e técnicas), realizados?
5) Há alguns anos, o número de escolinhas de futebol era visivelmente bem maior do que no presente. Essa afirmação é verdadeira, no seu ponto de vista?
6) Sendo fato, a afirmação acima, a que você atribui a falta de maior sucesso desse seguimento, o qual eu imaginava que continuaríamos sendo os maiores campeões do mundo por muito tempo por formarmos tantos craques do futebol?
7) A minha pesquisa, está mostrando uma forte relação da Matemática e da Física, ambas conteúdos da escola. Educação Física, português e Inglês são outras disciplinas igualmente importantes para o crescimento profissional destes, além das táticas e técnicas que o jogador aprende na escolinha, estou correto?
8) Se a afirmação acima estiver correta, a escola e a escolinha de futebol poderão se aproximar mais e assim realmente formar melhor, quantitativa e qualitativamente?
9) Vocês dispõem de uma relação de craques profissionais da atualidade que foram formados nas escolinhas?
10) Vocês têm estatísticas que mostre o número de alunos da escolinha nos últimos anos?
Abraço forte,
Antônio Fernandes
Professor e pesquisador
prof.antonio54@gmail.com
Professor de escolas públicas em São Paulo
E.T: para facilitar, a resposta poderá ser feita na frente de cada pergunta.
PESQUISA II
Público: Confederação Brasileira de Futebol, federações esportivas estaduais, FIFA, estudiosos do futebol.
Estou pesquisando sobre o mercado de jogadores de futebol no Brasil e no mundo. Vocês poderão me informar sobre as questões abaixo:
1) Quantos jogadores estiveram atuando profissionalmente em cada uma das séries do futebol brasileiro no ano de 2010?
2) Quantos são os jogadores de futebol nos principais estados da federação do Brasil?
3) Quantos são os jogadores profissionais do futebol no Brasil?
4) Quantos são os jogadores profissionais do futebol no planeta Terra?
5) Há estatísticas de salário mínimo e médio para cada um dos itens acima?
Desde já agradeço,
Profº. Antônio Fernandes - prof.antonio54@gmail.com
Objetiva mostrar explicitamente as muitas correlações do futebol com a escola e que a maioria das pessoas não observam. Nem mesmo os garotos e garotas que almejam grande futuro nesse esporte das multidões, tem aproveitado esse período de preparação e assim tornar-se profissionalmente mais completo, responsável, coerente com os princípios mais nobres deixados pelos grandes mestres da educação em todos os tempos, desde Sócrates e Platão até Mahatma Ghandi e o Profº Paulo Freire.
Jogadas
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Artes
Professores/Plano de aula/Futebol-arte ou artes e futebol
Plano de aula
Conteúdos para professores
Futebol-arte ou artes e futebol
Atividades em torno do maior espetáculo esportivo do planeta Terra, que é a Copa do Mundo, tanto podem servir de “texto” como de pretexto para um bom trabalho pedagógico e educacional. Essas sugestões de aula, voltadas para a disciplina de artes, aproveitam a profusão de imagens (um dos elementos fundamentais das artes visuais), produzidas por esse evento de escala mundial, para criar um olhar mais atento ao nosso cotidiano.
É bastante recorrente no meio educacional, particularmente entre professores de educação artística, usar o termo “educação do olhar”. Mas, o que será isto? O olhar pode ser educado? Em oposição, o que será um olhar "mal-educado"?
Educação do olhar, segundo estudos específicos de Betty Edwards, significa passar a identificar imagens, temas e enquadramentos que por muitas vezes passam despercebidos por olhos comuns ou mesmo “mal-educados”.
O termo “olhar mal-educado” pode ser empregado para pessoas com a sensibilidade de um olhar criativo ou mesmo um olhar crítico mal desenvolvido. Algo que pode ser facilmente mudado com exercícios específicos.
Dica de Leitura: Desenhando com o lado direito do cérebro – Betty Edwards
Ponto de partida
“Ver com olhos livres.” (Oswald de Andrade)
“Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus próprios fins, o olho é aquilo que foi comovido por certo impacto do mundo (...).” (Merleau-Ponty)
Passos sugeridos
1. Solicite que os alunos pesquisem, em sites e em revistas antigas, imagens que eles considerem representativas das edições anteriores da Copa do Mundo. Vale retratos dos jogadores, imagens dos estádios, situações de jogo, caricaturas, charges etc.
2. Organize, com a participação dos alunos, as imagens trazidas, classificando as mais interessantes para criar um pequeno roteiro.
3. Em seguida, priorize alguma imagem ou um grupo delas, que mais atraiu ou interessou seus alunos e os oriente para uma “leitura de imagem fotográfica”, valendo-se dos seguintes procedimentos e pressupostos para a criação do roteiro:
Questionamentos a serem feitos
• Podemos usar como tema perguntas referentes à finalidade de cada uma das fotos e imagens selecionadas. O que cada foto mostra? Uma segunda pergunta consiste em indagar o que elas nos dizem a respeito das pessoas da imagem, no caso os jogadores, que é revelado por meio de seus trajes, lugares, situações, atividades e expressões.
• Uma terceira possibilidade poderia ser procurar avaliar o que elas revelam sobre a realidade dos jogos em cada momento da história. O que pode ser e não ser visto sobre o jogo, ou sobre os jogadores, que está sendo mostrado por meio das fotos? Qual o objeto de interesse ao longo dos tempos? “Dessa forma, o aluno começa a exercitar e reeducar seu olhar”.
• Podemos também olhar as imagens buscando analisá-las do ponto de vista dos elementos construtivos da linguagem fotográfica: o que o fotógrafo quis passar ao espectador com tal imagem?
O enquadramento é algo muito importante para qualquer fotógrafo, pois por meio dele, sabe-se exatamente o que sairá na foto.
Objetivo da atividade
Ao final desse “inventário”, teremos algumas informações sobre a Seleção Brasileira, sobre a Copa do Mundo, sobre a visão do aluno e sua ligação com o tema. Muitas vezes o resultado dos trabalhos será cômico ou surpreendente.
O que nos interessa, como educadores de artes, é oferecer aos alunos a possibilidade de fazer uma releitura criativa de variados temas, e dar início a uma reeducação do modo como olhamos o mundo.
http://www.klickeducacao.com.br/conteudo/pagina/0,6313,POR-642-,00.html
http://artedofutebol.wordpress.com/
http://www.futebolearte.blogger.com.br/
Plano de aula
Conteúdos para professores
Futebol-arte ou artes e futebol
Atividades em torno do maior espetáculo esportivo do planeta Terra, que é a Copa do Mundo, tanto podem servir de “texto” como de pretexto para um bom trabalho pedagógico e educacional. Essas sugestões de aula, voltadas para a disciplina de artes, aproveitam a profusão de imagens (um dos elementos fundamentais das artes visuais), produzidas por esse evento de escala mundial, para criar um olhar mais atento ao nosso cotidiano.
É bastante recorrente no meio educacional, particularmente entre professores de educação artística, usar o termo “educação do olhar”. Mas, o que será isto? O olhar pode ser educado? Em oposição, o que será um olhar "mal-educado"?
Educação do olhar, segundo estudos específicos de Betty Edwards, significa passar a identificar imagens, temas e enquadramentos que por muitas vezes passam despercebidos por olhos comuns ou mesmo “mal-educados”.
O termo “olhar mal-educado” pode ser empregado para pessoas com a sensibilidade de um olhar criativo ou mesmo um olhar crítico mal desenvolvido. Algo que pode ser facilmente mudado com exercícios específicos.
Dica de Leitura: Desenhando com o lado direito do cérebro – Betty Edwards
Ponto de partida
“Ver com olhos livres.” (Oswald de Andrade)
“Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus próprios fins, o olho é aquilo que foi comovido por certo impacto do mundo (...).” (Merleau-Ponty)
Passos sugeridos
1. Solicite que os alunos pesquisem, em sites e em revistas antigas, imagens que eles considerem representativas das edições anteriores da Copa do Mundo. Vale retratos dos jogadores, imagens dos estádios, situações de jogo, caricaturas, charges etc.
2. Organize, com a participação dos alunos, as imagens trazidas, classificando as mais interessantes para criar um pequeno roteiro.
3. Em seguida, priorize alguma imagem ou um grupo delas, que mais atraiu ou interessou seus alunos e os oriente para uma “leitura de imagem fotográfica”, valendo-se dos seguintes procedimentos e pressupostos para a criação do roteiro:
Questionamentos a serem feitos
• Podemos usar como tema perguntas referentes à finalidade de cada uma das fotos e imagens selecionadas. O que cada foto mostra? Uma segunda pergunta consiste em indagar o que elas nos dizem a respeito das pessoas da imagem, no caso os jogadores, que é revelado por meio de seus trajes, lugares, situações, atividades e expressões.
• Uma terceira possibilidade poderia ser procurar avaliar o que elas revelam sobre a realidade dos jogos em cada momento da história. O que pode ser e não ser visto sobre o jogo, ou sobre os jogadores, que está sendo mostrado por meio das fotos? Qual o objeto de interesse ao longo dos tempos? “Dessa forma, o aluno começa a exercitar e reeducar seu olhar”.
• Podemos também olhar as imagens buscando analisá-las do ponto de vista dos elementos construtivos da linguagem fotográfica: o que o fotógrafo quis passar ao espectador com tal imagem?
O enquadramento é algo muito importante para qualquer fotógrafo, pois por meio dele, sabe-se exatamente o que sairá na foto.
Objetivo da atividade
Ao final desse “inventário”, teremos algumas informações sobre a Seleção Brasileira, sobre a Copa do Mundo, sobre a visão do aluno e sua ligação com o tema. Muitas vezes o resultado dos trabalhos será cômico ou surpreendente.
O que nos interessa, como educadores de artes, é oferecer aos alunos a possibilidade de fazer uma releitura criativa de variados temas, e dar início a uma reeducação do modo como olhamos o mundo.
http://www.klickeducacao.com.br/conteudo/pagina/0,6313,POR-642-,00.html
http://artedofutebol.wordpress.com/
http://www.futebolearte.blogger.com.br/
Geografia
2. Geografia
FUTEBOL E GEOGRAFIA: POSSIBILIDADE DE APREENSÃO ATRAVÉS DO
CONCEITO DE ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
Fernando Rosseto Gallego Campos*
* Graduado em Geografia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP); Graduado em Comunicação Social –
Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Endereço: Av. Silva Jardim, 2833, ap. 901 – Curitiba – PR. E-mail: fgallego@gmail.com
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a pertinência e a importância do estudo do futebol sob o olhar da ciência geográfica, bem como as possibilidades de isto ser feito através do conceito de espaço de representação do futebol. A renovação da Geografia Cultural permite a incorporação de novas temáticas e abordagens, tais como o futebol. Este é um importante elemento sócio-cultural e espacial e merece mais atenção da ciência geográfica.
Propõe-se esta aproximação através do conceito de espaço de representação do futebol, desenvolvido a partir das formulações de Lefébvre (1991), Soja (1996) e Gil Filho (2003).
Este é uma instância da espacialidade própria do futebol composta por diversos elementos tais como: fato futebolístico; prática social do futebol; poder; símbolo; mito moderno; discurso; identidade futebolística; política institucional; ethos futebolístico e paixão/afetividade.
Palavras-chave: futebol; abordagem cultural em geografia; espaço de representação; espaço de representação do futebol.
ABSTRACT
The following work aims demonstrate the aptness and the importance of the football study under geographic eyes, such as the possibilities to do this trough the football representational space concept. The Cultural Geography’s renewal allows the incorporation of new thematic and approaches, such as football. This is an important social-cultural and spatial element that deserves geography science attention. This approximation is proposed trough the football representational space concept, veloped from the Lefébvre’s (1991), Soja’s (1996) and Gil Filho’s (2003) formulations. This is a football own spatial instance compounded by several elements, such as: footballing fact; social practice of football; power; symbol; modern myth; speech; footballing identity; institutional politics, footballing ethos and passion/affection. Key-words: football; cultural geography approach; representational space; football representational space.
INTRODUÇÃO
A Geografia Cultural não apenas permite, mas exige a incorporação tanto de novas abordagens teóricas como de novas temáticas. Dentro deste contexto é que se propõe a apreensão do futebol pela ciência geográfica, pois este é um importante elemento sociocultural e espacial brasileiro. Isto é possível a partir de diversas abordagens teóricas. Aqui se apresenta uma proposta, a do conceito de espaço de representação do futebol, desenvolvido a partir das formulações de LEFÉBVRE (1991), SOJA (1996) e GIL FILHO (2003), além da teoria das representações sociais de MOSCOVICI (2003).
O objetivo deste artigo é demonstrar a pertinência e a importância do estudo do futebol sob o olhar da ciência geográfica, bem como as possibilidades de isto ser feito através do conceito de espaço de representação do futebol. Este é uma instância da espacialidade própria do futebol, cuja experiência se dá no cotidiano. Ele é formado por diversos elementos, tais como: fato futebolístico, prática social do futebol, poder, símbolo, mito moderno, discurso, identidade futebolística, política institucional, ethos futebolístico e paixão/afetividade.
Primeiramente, é realizada uma discussão acerca das novas possibilidades que a renovação da abordagem cultural em geografia oferece, bem como de que maneira o futebol se insere neste contexto como um elemento importante para a ciência geográfica. Posteriormente, é apresentado o conceito de espaço de representação do futebol, uma alternativa teórica que possibilita o estudo do futebol pela Geografia a partir de seus diferentes aspectos (esportivo, cultural, social, espacial, etc.).
FUTEBOL E ABORDEGEM CULTURAL EM GEOGRAFIA
A partir da década de 1980, a nova abordagem cultural em geografia passa a incorporar elementos não materiais em seus estudos, rompendo com o positivismo e se aproximando do ideal pós-moderno (GOMES, 1996). A cultura ganha caráter dinâmico e em evolução. Passa de uma geração para outra, mas modifica-se neste processo de comunicação e nas transformações sociais. Aspectos materiais continuam fazendo parte dos trabalhos, mas em outro contexto. Deixam de ser a única forma de se explicar as relações culturais e passam a ser estudados junto dos aspectos cognitivos, das atividades mentais e trocas de informações e idéias. As antigas metodologias, técnicas e teorias são repensadas permitindo um maior diálogo com novas concepções dentro da própria geografia e outras derivadas das demais ciências.
A cultura passa a ser definida como “a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e, em outra escala, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte” (CLAVAL, 2001a, p.63).
Desta maneira, a cultura deixa de ser apreendida como algo já dado e estanque, mas agora como algo dinâmico e de caráter simbólico. Desta forma, temáticas até então negligenciadas pela ciência geográfica, como o futebol, passam a ser incorporadas (MASCARENHAS, 1999). No caso especifico deste, apesar das novas possibilidades epistemológicas, ele ainda não recebe a atenção necessária da ciência geográfica. Há pouquíssimos trabalhos que abordam esta temática sob o olhar geográfico.
É fundamental que a Geografia dê mais atenção para o futebol, pois este é um importante elemento da sociedade brasileira, tanto sob sua dimensão esportiva quanto cultural, social, identitária e até mesmo espacial. O futebol faz parte do cotidiano dos brasileiros, que manifestam através dele sua cultura e sua visão do espaço. Ele constrói territorialidades próprias, apropriando-se de elementos simbólicos. Ele transcende, assim, sua qualidade esportiva, passando ser um fator essencial para a compreensão da construção espacial e social brasileira e até mesmo mundial. GIULIANOTTI (2002. p. 08) atribui a importância dada ao futebol não apenas porque este é parte integrante de uma cultura, mas também porque “as características valorizadas no jogo nos dizem algo fundamental sobre as culturas em que ele é praticado.”
No Brasil, é atribuído ao futebol um importante lugar na constituição de uma cultura nacional, bem como no estabelecimento de uma suposta identidade nacional. BELLOS aponta o futebol como “o símbolo mais forte da identidade brasileira” e “o meio mais eficiente de se integrar à sociedade brasileira” (BELLOS, 2003, p. 09-10). Esta condição apontada por BELLOS exprime a importância que possui o futebol para o brasileiro, pois faz parte de sua vida cotidiana e de suas relações sociais. Roberto DAMATTA (1984, p. 17) afirma que “a construção de uma identidade social, então, como a construção de uma sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões”. No Brasil, o futebol é uma destas afirmativas. Para TOLEDO (2000, p. 08), o futebol é “uma manifestação cultural que revela nosso jeito, malícia, alegria ou ginga, o futebol protagonizou os contornos de um processo de identificação construído e engendrado por esses diferentes agentes sociais em interação”.
O futebol passou então a receber uma atenção especial de toda sociedade brasileira, pois além de ser um meio de manifestar sua cultura era uma forma simbólica de construção de uma suposta identidade nacional e da própria cultura brasileira manifestada ali. GIULIANOTTI (2002, p. 08) aponta o futebol como elemento central em diversas culturas: “sua centralidade cultural, na maior parte das sociedades, significa que o futebol tem uma importância política e simbólica profunda, já que o jogo pode contribuir fundamentalmente para as ações sociais, filosofias práticas e identidades culturais de muitos e muitos povos”.
Inclusive, o futebol foi altamente utilizado como instrumento político de legitimação não apenas de uma nação, mas também de regimes, principalmente ditatoriais. Este é o caso da utilização das seleções nacionais e clubes pelos governos de Mussolini, Hitler, Videla, Franco e de muitos governantes brasileiros (Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, João Goulart, os militares, entre outros). No Brasil, a expressão deste uso político do futebol pode ser visto na construção de enormes estádios pelo país, com intuito de reunir as massas para o espetáculo futebolístico, que muitas vezes era permeado por elementos políticos (HELAL, 1997).
No início dos anos 70 foram construídos vários estádios com capacidade para mais de 70 mil pessoas e alguns inclusive com capacidade para mais de 100 mil pessoas, como por exemplo o Morumbi, em São Paulo, o Rei Pelé, em Maceió, e o Castelão,no Ceará. Nessa época, o país, sob regime militar, atravessava um período de otimismo econômico que ficou conhecido como o “milagre brasileiro”. A propaganda oficial, estimulando o ufanismo, falava em “País do Futuro”, “Ame-o ou Deixe-o” e “Brasil Grande”, e o futebol, devido a sua expressiva popularidade, atraía o interesse do governo em tornar eficazes as suas mensagens. Este fato, somado ao sucesso do futebol brasileiro nos anos 60, encorajou a construção de grandes estádios por todos o país (HELAL, 1997, p. 52).
As Copas do Mundo são os pontos máximos de identificação nacional em torno do futebol. Desta forma, nestes períodos o uso político do futebol é mais visível, principalmente quando a Seleção consegue êxito: “para os ligados mais diretamente ao governo, repetir o discurso oficial era fácil, uma vez que bastava relacionar o desempenho da seleção ao momento de euforia econômica que se convencionou chamar de Milagre” (AGOSTINO, 2002, p. 162). Tal citação expressa como o governo brasileiro soube aproveitar a vitória na Copa de 1970, mesclando propagandas da própria Seleção Brasileira com propagandas do Regime Militar. O futebol, além de manifestar uma cultura nacional, também afirma culturas locais. Esta cultura local é manifestada, principalmente, através dos clubes e das rivalidades:
Ao mesmo tempo que o nacionalismo do futebol emerge periodicamente nos eventos e torneios internacionais, são interesses locais e municipais que seguram o jogo no nível básico. As lealdades diárias de torcedores e jogadores tendem a ser concedidas a clubes individuais muito mais do que as nações. No âmbito do clube, encontramos importantes reflexões simbólicas do período moderno inicial, industrial, urbano, em que o futebol emergiu como esporte nacional, tanto no velho quanto no novo mundo (GIULIANOTTI, 2002, p. 53-54).
Portanto, a constituição do futebol como elemento fundamental na cultura e sociedade brasileiras não se dá apenas no âmbito nacional, mais especificamente no que diz respeito à Seleção Brasileira. Os clubes têm papel essencial na afirmação do futebol nas sociedades locais. O futebol ocupa lugar central na sociedade e cultura brasileiras, sendo possível, então, afirmar que possui uma instância própria da espacialidade: o espaço de representação do futebol. A seguir será apresentado este conceito, que é muito rico para a apreensão das relações espaciais do futebol, não sendo, entretanto, a única maneira de fazê-lo. A diversidade de abordagens é extremamente positiva para se estudar o futebol sob o olhar geográfico, pois as possibilidades são inúmeras. Desta maneira, não é possível restringir o estudo do futebol apenas à abordagem cultural em geografia, mas também estender esta apreensão a outras perspectivas, tais como a da Geografia Social.
ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
As representações sociais são formas de conhecimento produzidas no cotidiano (MOSCOVICI, 2003). Elas são criadas, circulam, se modificam e morrem no dia-a-dia dos indivíduos. Assim, o conhecimento formulado no cotidiano do futebol se dá através de representações sociais, formuladas pelos diferentes atores sócio-espaciais do futebol. Elas devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que se sabe. Reproduzem o mundo de forma significativa, pois cada representação é acompanhada de uma imagem e de uma significação simbólica. As representações sociais são a forma pela qual as pessoas compreendem a realidade, sendo sua finalidade “tornar familiar algo não-familiar, ou a própria não familiaridade” (MOSCOVICI, 2003, p. 54).
É possível dizer que o futebol também constitui um espaço próprio, no qual se relacionam os atores sócio-espaciais. Este instância da espacialidade é o espaço de representação do futebol. Nele os indivíduos produzem territorialidades próprias e se apropriam de elementos simbólicos. O espaço de representação do futebol tem grande importância na vida dos brasileiros, que manifestam através do futebol sua cultura. O conceito de espaço de representação do futebol deriva das concepções sobre o espaço de representação.
Este é uma instância da espacialidade que transcende o espaço físico e permite que seus objetos recebam valores simbólicos (LEFÉBVRE, 1991). É um espaço simbólico que interage com as outras instâncias da espacialidade: a prática espacial e a representação do espaço. Nele se relacionam o real e o imaginário e se expressa o cotidiano (GIL FILHO, 2003).
LEFÉBVRE (1991) defende a idéia de que o espaço não é algo já dado, mas sim produzido. Atribui grande importância à organização espacial como produto social. Em “The Production of Space” (1991), LEFÉBVRE apresenta uma discussão sobre o espaço social, sendo ponto fundamental de tal debate a divisão do espaço em três componentes coexistentes. O espaço de representação é um destes componentes, que formam o que SOJA (1996), ao analisar a obra deste autor, chama de trialética do espaço. Esta tríade é formada pelo: espaço percebido – o espaço das práticas sociais (spatial practice), das relações materiais da espacialidade social; espaço concebido (representations of space) – é o espaço das instituições, onde ocorrem as representações do espaço produzidas pelas relações de poder, que influenciam a percepção espacial; e o espaço vivido (representational spaces) – que é o espaço de representação, no qual o ser humano se auto-representa a fim de buscar seu prazer e autenticidade, esquivando-se do espaço concebido. O espaço de representação é simbólico. Nele os significados atribuídos aos objetos podem ser modificados em relação ao espaço físico. Geralmente, estes símbolos e signos fazem parte de um sistema mais ou menos coerente. LEFÉBVRE escreve sobre o espaço de representação: Space as directly lived through its associated images and symbols, and hence the space of ‘inhabitants’ and ‘users’, but also of some artists and perhaps of those, such as a few writers and philosophers, who describe and aspire to do no more than describe. This is the dominated – and hence passively experienced – space which the imagination seeks to change and appropriate. It overlays physical space, making symbolic use of its objects. Thus representational spaces may be said, though again with certain exceptions, to tend towards more or less coherent systems of non-verbal symbols and signs (LEFÉBVRE, 1991, p. 39) SOJA faz uma leitura da obra de LEFÉBVRE em seu livro “Thirdspace” (1996). Nele, o autor procura apresentar as principais formulações do filósofo francês e, a partir delas, realizar suas próprias. Ao falar do espaço de representação, SOJA o atribui a condição de conter em seu interior tanto o espaço real quanto o imaginário, simultaneamente: “Combining the real and the imagined, things and thought on equal terms, or at least not privileging one over the other a priori” (SOJA, 1996, p. 68).
Segundo Sylvio Fausto GIL FILHO (2003), o espaço de representação passa pelo espaço visível, mas é simbólico, tendo o atributo de projetar o ser no mundo. É através dele que o sujeito se contextualiza no mundo, se articulando com o espaço da prática social e suas relações materiais. GIL FILHO realiza uma proposta epistemológica para o uso do espaço de representação como conceito chave para estudos da geografia cultural. Para ele: O espaço de representação é o reino da esfera consensual, e a expressão da esfera retificada da consciência coletiva, o momento em que o atributo de ser uma coisa se torna típica da realidade objetiva. Sua prática cotidiana é a própria representação, e sua expressão é o condicionamento do poder exercido. O espaço de representação é um espaço vivo com ligações culturais, lócus da ação e das situações vivenciadas. É relacional em percepção, diferencialmente qualitativo e dinâmico e de natureza simbólica (GIL FILHO, 2003, p. 5). A categoria espaço de representação, conforme apresentado, é capaz de sustentar a teoria das representações sociais em uma perspectiva geográfica. Assim, contribui para que a abordagem cultural em geografia ganhe fôlego a partir da perspectiva da realização de um diálogo com a teoria das representações sociais. Deste modo, a cultura passa a exercer uma função norteadora, possibilitando que os trabalhos em geografia cultural se fundamentem na teoria das representações sociais e utilizem o espaço de representação como conceito chave. O espaço de representação se estrutura através de círculos que interagem entre si, formando complexas relações. Há o círculo dos reinos, das categorias de mediação e das categoriais centrais. Os reinos se manifestam enquanto representação social, já as categorias centrais, através de sua interação, produzem o conceito de espaço de representação. Elas se expressam através do círculo das categorias de mediação.
A partir do redimensionamento do espaço de representação realizado por GIL FILHO(2003) – em seus estudos sobre geografia da religião – foi desenvolvida a estruturação do espaço de representação do futebol. O espaço de representação do futebol se divide em três elementos das categorias centrais: o poder, o fato futebolístico e a prática social do futebol.
Estas três categoriais centrais se relacionam com os três reinos (da política institucional, da paixão/afetividade e do ethos futebolísticos) através das quatro seguintes categoriais de mediação: o mito moderno, o discurso, a identidade futebolística e o símbolo. A inter-relação de todos estes elementos constitui o espaço de representação do futebol (FIGURA 01).
ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
O futebol apresenta uma prática social própria, porém altamente articulada com a prática social cotidiana (no Brasil, ambas são dissociáveis). Tal articulação se dá de maneira mais íntima em sociedades em que o futebol ocupa um espaço importante como elemento sócio-cultural e de sociabilização. A mobilização social em torno da Seleção Brasileira em época de Copa do Mundo, sobretudo, é um exemplo desta articulação. Dentro do contexto do espaço de representação do futebol, prática social do futebol são todas e quaisquer relações sociais produzidas pelo futebol. Vai desde o ir ao estádio, o jogar, o torcer, até os comentários produzidos pela partida e seus bastidores. São nas relações cotidianas que circulam, são criadas e modificadas as representações sociais. Segundo BERGER e LUCKMANN (1999), a realidade social é construída objetiva e subjetivamente pelos indivíduos a partir de suas relações cotidianas. Como o futebol faz parte desta realidade, ele pode ser apreendido como, ao mesmo tempo, um produtor e um produto de representações sociais; através das quais o mundo cotidiano apresenta-se como coerente e dotado de sentido para os indivíduos.
A prática social do futebol se organiza em torno do “aqui e agora”, do face a face – que se constitui a base da interação social. Portanto, o encontro de torcedores no estádio ou em espaços públicos é a situação mais propícia para o surgimento, modificações e circulações de representações sociais. Mas a realidade social pode ser apreendida também através de mediações, ou seja, o indivíduo não precisa estar presente para ter contato com ela. Ele pode o fazer através da mídia, nas transmissões dos jogos. O fato futebolístico pode ser apontado como elemento original do espaço de representação do futebol, pois sem ele os outros não fariam sentido. Ele é o ritual, o espetáculo em si, a partida e os eventos que a circundam. Ele não se limita ao esporte profissional, mas se estende à prática lúdica do jogo. É a partir do fato futebolístico que os torcedores formulam as representações sociais, que os diferentes atores do espaço de representação do futebol se relacionam e produzem seus discursos, que os símbolos e mitos são gerados, enfim, que toda a malha de significados que permeia o futebol é criada.
O poder é fundamental na constituição do espaço de representação do futebol, pois ele permeia todas as relações (RAFFESTIN, 1993). Ele se materializa nas relações entre os diferentes atores sócio-espaciais, formando representações sociais, símbolos, mitos modernos, valores, discursos, etc. A existência do poder pressupõe uma relação desigual, uma relação de força, entre os indivíduos ou grupos que participam dela. O que não significa que o poder é algo exclusivamente maléfico e repressivo. O poder não é algo que é possuído, mas algo que é exercido. Não há aqueles que detêm e aqueles que não detêm o poder. Todos os indivíduos exercem e sofrem ações do poder (FOUCAULT, 1998). Os diferentes atores sócio-espaciais interagem entre si formando uma rede de relações sócio-espaciais a partir do futebol. Nesta rede, o poder é exercido de diversas maneiras entre as instituições e os atores sócio-espaciais.
As relações de poder produzem representações sociais que influenciam na maneira de se jogar, torcer, entender, de se relacionar com o futebol. As categoriais centrais, em interação, produzem símbolos, mitos modernos, discursos e identidades futebolísticas. Tais elementos são fundamentais, pois são eles que vão produzir sentido e perpetuar o universo simbólico do futebol. Eles surgem e circulam como representações sociais nas relações cotidianas produzidas pelo futebol. O discurso possui uma ligação íntima com o poder, pois é uma manifestação deste. Ele é produzido e circulado através de relações de poder, que por sua vez também dependem deste discurso para existir. O discurso pode ser entendido como a mediação entre fenômenos da realidade e o saber. Ele expressa este saber, uma construção de poder sobre fatos da realidade. Os discursos produzidos no espaço de representação do futebol estão ligados aos papéis dos atores sócioespaciais desta instância da espacialidade. Cada papel exige e produz uma certa prática discursiva. É certo que esta depende também do indivíduo que fala, mas é fundamental lembrar que este está investido de um cargo, que dentro da estrutura do futebol e das relações de poder às quais está exposto, exige certa regularidade discursiva.
Os símbolos estão presentes nos comportamentos, sentimentos, desejos e atos dos diversos atores sociais. Através deles é possível desvelar manifestações do inconsciente, os motivos das ações, descobrir os aspectos mais íntimos que motivam as diversas relações. Eles são todo e qualquer artefato ligado ao futebol, como as cores dos clubes, suas camisas, distintivos, bandeiras, mascotes, etc. O símbolo vai além do significado do objeto em questão, estendendo-se ao sujeito. Assim, os significados dos símbolos não são universais e intemporais, pois estes dependem da cultura na qual estão emersos, da época que se trata, dos atores sociais que se apropriam destes e das instituições que representam. Assim, o mesmo símbolo admite mais de uma significação, mais de uma interpretação; podem mudar de significado em relação de que se apropria deles. Estes elementos são fundamentais nas relações promovidas pelo futebol, pois são eles que dão significado ao espaço de representação do futebol. Os mitos estão inseridos no pensamento simbólico e seu entendimento passa pela compreensão dos ritos. CASSIRER (1992) atribui aos mitos a função de dar sentido à realidade. Desta maneira, são as referências do passado do esporte, dos clubes ou das seleções. Eles são construídos através da mitificação de jogadores, treinadores, entre outros atores desta instância da espacialidade. Eles afloram em épocas de dificuldades ou de conquistas, quando se remete ao passado. Os mitos modernos do futebol são construídos através dos tempos por seus feitos.
O processo de identificação se dá no cotidiano a partir da construção de significados com base em atributos culturais (CASTELLS, 2002). Os indivíduos criam identidades através do compartilhamento de representações sociais. Estas reagem à estrutura social, remodelando-a constantemente. Elas podem ser construídas através da história, geografia, instituições, fantasias, por relações de poder, entre outros fatores. Todavia, a identidade não passa apenas pelo processo de inclusão, mas também de exclusão – manifestado pela oposição ao outro a fim de promover o autoconhecimento. Fazer parte de um grupo é se opor a um antagônico. É através da identidade futebolística que os torcedores se “aglutinam” socialmente em torno de um clube. O compartilhamento de representações gera um sentimento de pertença formando-se, assim, as torcidas, que têm por característica a negação de outros clubes. Portanto, a identidade futebolística não se resume apenas a se identificar com um clube, mas também de negar os demais, principalmente os rivais.
Estas quatro últimas categorias apresentadas articulam os reinos. O reino da política institucional é aquele no qual as instituições futebolísticas interagem através de relações de poder. Tais relações são fundamentalmente políticas, pois é a partir delas que os indivíduos e grupos se diferenciam dos outros e que as organizações mantêm sua ordem interna. As instituições são construídas a partir de uma historicidade compartilhada. O mundo institucional precede o nascimento do indivíduo e permanecerá depois de sua morte. Elas têm histórias próprias, construídas por indivíduos em um processo social. Os clubes, federações e torcidas organizadas são alguns exemplos de instituições que constituem o espaço de representação do futebol. Este reino é fragmentado e desigual em suas relações entre os atores que o constituem. Assemelha-se ao universo retificado (MOSCOVICI, 2003).
Os valores produzidos pelas categorias centrais do espaço de representação do futebol se articulam no interior do reino do ethos futebolístico. Parte-se do pressuposto que o futebol produz e se estrutura através de uma série de valores, que podem ser antagônicos. Desta forma, as decisões tomadas no reino da política institucional, as manifestações de afetividade, as relações de poder, as representações sociais do futebol, etc. se articulam a partir de uma série de valores produzidos e modificados ao longo do tempo. Alguns valores produzidos pelo futebol e/ou contemplados por ele são o de profissionalismo, amadorismo, democracia social e racial, o da possibilidade de ascensão social, de identificação com a pátria, entre outros.
A afetividade é criada e manifestada a partir dos processos de socialização primária e secundária (BERGER; LUCKMANN, 1999). A socialização primária ocorre na infância, não apenas como um processo cognoscitivo, mas também tem como elemento fundamental as emoções. A criança se identifica com os significativos a sua volta, assimila os papéis e atitudes destes, e cria, assim, sua própria personalidade. Isto explica o fato da criança “herdar” dos pais a paixão por determinado clube. A socialização secundária é posterior a primária e depende desta. Ela é a interiorização de “submundos” institucionais. Esta interiorização é mais difícil do que a ocorrida no processo de socialização primária, pois agora o indivíduo já possui uma personalidade formada, ficando mais difícil o indivíduo trocar de clube quando mais velho. Além disto, este fato é socialmente condenável, sendo o indivíduo taxado de “vira casaca”. Nestes processos, não apenas os pais exercem influência, mas também os amigos e a própria mídia. O reino da afetividade é aquele no qual se articulam as diversas emoções em relação ao esporte, aos clubes, etc. As manifestações de afetividade levada ao extremo, de modo exaltado, serão chamadas aqui de paixão. Ela pode se manifestar de várias formas: pelos clubes, jogadores, etc. Além disto, a paixão pode desencadear outros sentimentos como o ódio por outros clubes ou seleções, entre outros. A paixão pelo clube passa pela negação dos demais. A paixão se manifesta nesta escolha e na defesa do clube, ou seja, no torcer. O torcedor não é completamente racional, não enxerga os fatos com imparcialidade, pois sua paixão o impede. Desta forma, rejeita tudo que não seja ligado ao seu clube, principalmente os outros times, pelos quais às vezes chega a cultivar ódio. As emoções permeiam todas as relações do espaço de representação do futebol de forma decisiva.
Em suma, o espaço de representação do futebol é a instância da espacialidade do futebol na vida dos indivíduos. Nele a experiência futebolística dos indivíduos é plena. Este espaço é concebido, construído, modificado e vivenciado nas relações cotidianas, através de representações sociais. No espaço de representação do futebol, os universos consensual e retificado se relacionam. Este espaço de representação do futebol ajuda os indivíduos a dar sentido a sua vida social, pois o futebol, no Brasil, extrapola seus significados esportivos, invadindo com enorme força o campo cultural e social, construindo paisagens, relações e símbolos. Tais elementos dizem muito sobre a cultura de uma determinada sociedade, pois são produtos de tal cultura. Assim sendo, o espaço de representação do futebol não é um conceito limitado exclusivamente para o estudo do futebol como esporte, mas como expressão social e cultural, podendo ser apropriado por qualquer estudo cujo objeto é a cultura e a sociedade em nível mundial, nacional, regional, estadual ou municipal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo procurou demonstrar a importância da apreensão do futebol pela ciência geográfica. O tema, muitas vezes negligenciado pela academia, merece maior atenção, pois é um elemento fundamental da cultura brasileira. O futebol transcende sua importância esportiva e tem importante papel social e espacial. Desta forma, o tema é pertinente não apenas para a abordagem cultural em geografia, mas como em outras perspectivas, como a Geografia Social, entre outras.
Uma interessante alternativa teórica para o estudo do futebol sob o olhar da Geografia é a do espaço de representação do futebol. Este conceito foi elaborado a partir de diversas formulações sobre o espaço de representação, como as de LEFÈBVRE (1991), SOJA (1996) e GIL FILHO (2003). Fundamentalmente, a prática social desta instância da espacialidade se dá no cotidiano. Mesmo assim, no espaço de representação do futebol os universos consensual e retificado coexistem. Esta prática está articulada com o fato futebolístico e ambos estão permeados pelas relações de poder. A interação destes elementos gera símbolos, mitos modernos, discursos e identidades futebolísticas, os quais se manifestam como representações sociais nos reinos da política institucional, ethos futebolístico e paixão/afetividade. No entanto, as possibilidades teóricas e metodológicas não se esgotam neste conceito.
Há um caminho muito longo a ser traçado, pois o futebol é um tema complexo, repleto de variáveis, nuances, peculiaridades locais, regionais e nacionais, que merecem ser estudas com maior atenção e afinco pela ciência geográfica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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http://www.geografia.ufpr.br/neer/NEER-1/comunicacoes/fernando-gallego.pdf
FUTEBOL E MODERNIDADE NO BRASIL:
A GEOGRAFIA HISTÓRICA DE UMA INOVAÇÃO1
Gilmar Mascarenhas de Jesus (Brasil)
Professor Assistente do Dep. de Geografia
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Resumo
A introdução efetiva do futebol na vida urbana brasileira não obedeceu ao comando de um polo nacional indutor, mas se deu concomitantemente através de diferentes pontos do território, dada a existencia de uma estrutura espacial de base para o modelo agro-exportador. O ritmo de evolução, o significado e o alcance do futebol em cada uma das principais cidades brasileiras no início do século variou segundo condições locais. Este trabalho pretende expor e debater alguns aspectos geográficos presentes no advento do futebol no Brasil, considerando a base territorial um fator ativo na dinâmica social.
Unitermos: Modernidade Urbana. Estrutura Territorial. Futebol Brasileiro.
Abstract
The introduction of football in Brazilian urban life did not follow a ideal pattern of hierarchical diffusion. It happened simultaneously through different spots in the national territory, thanks to the spatial structure oriented by the agroexportation model. The rythm of evolution, the significance and the social dimension reached by football in each of the main Brazilian cities in the begining of this century corresponds to local differences. This paper aims at showing and debating some geographical features of the introduction of football in Brazil, considering the territorial framework as having an active role on the social process.
Key words: Urban Modernity. Territorial Structure. Brazilian Soccer.
Introdução
A ascensão da figura do sportman na segunda metade do século passado está inserida num contexto mais amplo, no qual um dos aspectos centrais é a configuração de um ambiente urbano inédito na história das cidades. Um novo modo de vida vai se introduzindo abrupta e festivamente nas principais capitais européias, e Marshall Berman (1986:18) o definiu como calcado na exacerbação dos prazeres mundanos, atmosfera de agitação e turbulência, aturdimento psíquico e embriaguez, expansão das possibilidades de experiência e destruição de barreiras morais.
A industrialização e a revolução nos transportes (movida particularmente pela expansão das ferrovias) impulsionaram sobremaneira o crescimento das cidades. Mas o principal efeito destes vetores talvez não fora a tão propalada explosão urbana, refletida em gráficos dramáticos (para alguns, apocalípticos) de curvas exponenciais de crescimento. Uma importante transformação se deu no plano qualitativo, na profunda alteração dos quadros de existência no âmbito da vida social urbana. Neste ambiente propenso em demasia às novas experiências é que os exercícios corporais em geral e os esportes em particular tiveram seu impulso definitivo, imprimindo à vida cotidiana ingredientes e marcas indeléveis. Tal cenário é definido por muitos autores como modernidade urbana.
Não vamos nos alongar sobre um debate amplo e já tão bem delineado (por vias diversas) por autores como ELIAS (1985), DUNNING & SHEARD (1979), BARTH (1980), HOBSBAWN (1984), entre outros. O que nos interessa neste momento é refletir sobre a repercussão nos países periféricos deste movimento oriundo do centro do capitalismo mundial. No Brasil, a forte conexão com o capital industrial e mercantil inglês viabilizou entre nós a introdução de substanciais alterações comportamentais (FREYRE, 1948, GRAHAM, 1973; MANCHESTER, 1973). Dentre elas a adesão à formação de clubes para a prática esportiva, tomados como mais uma importante contribuição britânica civilizadora.
É fato notório que os ingleses introduziram o futebol no Brasil através das zonas portuárias e das suas empresas aqui instaladas em diversos ramos (comércio, construção de ferrovias e outras infra-estruturas, indústria, etc). Entretanto, a presença inglesa, por si só, não explica a adesão a novas formas de comportamento social. É preciso que haja um ambiente local aberto e propício a transformações. O capital inglês se fez presente em inúmeros pontos do território brasileiro, sem contudo promover simultaneamente o mesmo quadro de efeitos. O futebol, enquanto novidade do mundo dito civilizado, atingiu concomitantemente diversas cidades brasileiras. Entretanto, somente se incorporou efetivamente ao cotidiano urbano nos locais que preenchiam determinados requisitos, que conformavam um ambiente que pretendemos denominar, apesar da forçosa simplificação, de modernidade urbana. O objetivo deste trabalho é mensurar e qualificar o quanto possível o papel de nossa base territorial urbana no processo de introdução e difusão de uma inovação, o futebol. A literatura acadêmica existente, além de muito reduzida (embora atualmente em fase de expansão), relega completamente o contexto geográfico deste movimento. Pretendemos demonstrar que a base territorial, com sua profunda diferenciação interna, condicionou o processo de introdução e consolidação do futebol como espetáculo de entretenimento urbano.
Comparamos, neste sentido, os estágios iniciais do futebol em algumas das principais cidades brasileiras no início do século: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Belém. Cada cidade, dotada de uma dinâmica e ritmo próprios, imprimiu ao futebol suas marcas características. O esporte em si, era o mesmo, mas o significado social e a magnitude alcançada variaram de lugar para lugar, e não por razões aleatórias.
Algumas Dimensões da Geografia do Futebol no Brasil
Para aquilatar um pouco da importancia e ubiquidade que o futebol alcançou no Brasil basta percorrer breve e panoramicamente o vasto território nacional. Em cada pequena aglomeração humana, mesmo nas mais desabitadas regiões, há dois objetos na paisagem a caracterizar o nosso ecúmeno: uma pequena igreja e um campinho de futebol. Costuma-se dizer que a igreja pode até faltar (pois haverá sempre aquela outra do povoado mais próximo), mas o campinho, não.
Não há como ignorar a presença impregnante do futebol no cotidiano de nosso país. Dos imensos estádios espalhados pelas cidades de médio e grande porte, que vibram solidariamente às tardes de domingo, às conversas na mesa do botequim, passando pelo radinho de pilha aos ouvidos do lavrador distante, e derramando-se espaçosamente pelas páginas e imagens da grande imprensa, o Brasil respira o futebol. O calendário futebolístico demarca os tempos e os horizontes da vida cotidiana. E assim a metrópole se faz efetivamente presente e pulsante em cada dobra discreta do imenso território: ela é o palco dos grandes clubes e dos ídolos nacionais (JESUS, 1996).
Obviamente, a pujança do futebol brasileiro enquanto fato social, é uma construção histórica. A montagem deste amplo cenário é fruto dos processos articulados de formação de uma nação (e toda a sua carga simbólica) e de estruturação de um território em acelerada urbanização. Incialmente funcionando como apenas mais um modismo importado dos ingleses, prática restrita aos poucos jovens da elite republicana, o futebol se popularizou rapidamente. Sua difusão espacial expressiva permitiu que se tornasse uma poderosa instituição nacional (CALDAS, 1990; WITTER & MEIHY, 1979).
Não obstante tão evidente expressão espacial desta realidade, não existe no Brasil qualquer esboço de uma geografia do futebol. As raras referências existentes não passam de breves comentários, ainda que valiosos, como em SEABRA (1987). Tal omissão adquire contornos inquietantes quando se toma em conta, por um lado, a pujança do futebol no País, e por outro, a existência de várias experiências bem sucedidas de geógrafos no exterior (BALE, 1982, 1989, 1993; ROONEY, 1974; AUGUSTIN, 1995 e GASPAR, 1982).
As lacunas não se esgotam no âmbito da geografia. Majoritariamente, a historiografia do futebol brasileiro se restringe à escala local. Mesmo autores que se propõem a operar com a escala nacional (MAZZONI, 1950; e RODRIGUES FILHO, 1994, para citar apenas os clássicos), acabam se restringindo ao tradicional eixo Rio-São Paulo. A história do futebol nas demais cidades (à exceção de Porto Alegre) permanece pouco documentada e sobretudo pouco conhecida. Mesmo Janet Lever (1983), que indubitavelmente maneja uma área geograficamente mais extensa, deixa enormes lacunas.
Para realçar a necessidade de se edificar uma abordagem geográfica, cumpre lembrar que a difusão do futebol no Brasil, como qualquer outro movimento no interior de uma determinada sociedade, não se realiza de forma independente da base territorial. O espaço geográfico não é apenas o palco passivo do desenrolar dos fatos históricos. Pelo contrário, ele joga papel crucial no devir das estruturas socias. Ele é, como diz Milton SANTOS (1996:257), ao mesmo tempo, uma condição para a ação, uma estrutura de controle, um limite à ação, um convite à ação. Resulta desta premissa nossa intenção em examinar a configuração territorial da rede urbana brasileira no processo de introdução do futebol em nossa vida cotidiana.
Lecturas: Educación Física y Deportes.
Año 3, Nº 10. Buenos Aires. Mayo 1998
http://www.efdeportes.com
http://www.efdeportes.com/efd10/geo.htm
http://www.monografias.brasilescola.com/geografia/geografia-futebolesporte-como-produtor-novosespacos-.htm
www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/article/download/.../88
http://esportes.r7.com/futebol/noticias/futebol-deseduca-quando-o-assunto-e-geografia-20091212.html
FUTEBOL E GEOGRAFIA: POSSIBILIDADE DE APREENSÃO ATRAVÉS DO
CONCEITO DE ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
Fernando Rosseto Gallego Campos*
* Graduado em Geografia pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP); Graduado em Comunicação Social –
Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Endereço: Av. Silva Jardim, 2833, ap. 901 – Curitiba – PR. E-mail: fgallego@gmail.com
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a pertinência e a importância do estudo do futebol sob o olhar da ciência geográfica, bem como as possibilidades de isto ser feito através do conceito de espaço de representação do futebol. A renovação da Geografia Cultural permite a incorporação de novas temáticas e abordagens, tais como o futebol. Este é um importante elemento sócio-cultural e espacial e merece mais atenção da ciência geográfica.
Propõe-se esta aproximação através do conceito de espaço de representação do futebol, desenvolvido a partir das formulações de Lefébvre (1991), Soja (1996) e Gil Filho (2003).
Este é uma instância da espacialidade própria do futebol composta por diversos elementos tais como: fato futebolístico; prática social do futebol; poder; símbolo; mito moderno; discurso; identidade futebolística; política institucional; ethos futebolístico e paixão/afetividade.
Palavras-chave: futebol; abordagem cultural em geografia; espaço de representação; espaço de representação do futebol.
ABSTRACT
The following work aims demonstrate the aptness and the importance of the football study under geographic eyes, such as the possibilities to do this trough the football representational space concept. The Cultural Geography’s renewal allows the incorporation of new thematic and approaches, such as football. This is an important social-cultural and spatial element that deserves geography science attention. This approximation is proposed trough the football representational space concept, veloped from the Lefébvre’s (1991), Soja’s (1996) and Gil Filho’s (2003) formulations. This is a football own spatial instance compounded by several elements, such as: footballing fact; social practice of football; power; symbol; modern myth; speech; footballing identity; institutional politics, footballing ethos and passion/affection. Key-words: football; cultural geography approach; representational space; football representational space.
INTRODUÇÃO
A Geografia Cultural não apenas permite, mas exige a incorporação tanto de novas abordagens teóricas como de novas temáticas. Dentro deste contexto é que se propõe a apreensão do futebol pela ciência geográfica, pois este é um importante elemento sociocultural e espacial brasileiro. Isto é possível a partir de diversas abordagens teóricas. Aqui se apresenta uma proposta, a do conceito de espaço de representação do futebol, desenvolvido a partir das formulações de LEFÉBVRE (1991), SOJA (1996) e GIL FILHO (2003), além da teoria das representações sociais de MOSCOVICI (2003).
O objetivo deste artigo é demonstrar a pertinência e a importância do estudo do futebol sob o olhar da ciência geográfica, bem como as possibilidades de isto ser feito através do conceito de espaço de representação do futebol. Este é uma instância da espacialidade própria do futebol, cuja experiência se dá no cotidiano. Ele é formado por diversos elementos, tais como: fato futebolístico, prática social do futebol, poder, símbolo, mito moderno, discurso, identidade futebolística, política institucional, ethos futebolístico e paixão/afetividade.
Primeiramente, é realizada uma discussão acerca das novas possibilidades que a renovação da abordagem cultural em geografia oferece, bem como de que maneira o futebol se insere neste contexto como um elemento importante para a ciência geográfica. Posteriormente, é apresentado o conceito de espaço de representação do futebol, uma alternativa teórica que possibilita o estudo do futebol pela Geografia a partir de seus diferentes aspectos (esportivo, cultural, social, espacial, etc.).
FUTEBOL E ABORDEGEM CULTURAL EM GEOGRAFIA
A partir da década de 1980, a nova abordagem cultural em geografia passa a incorporar elementos não materiais em seus estudos, rompendo com o positivismo e se aproximando do ideal pós-moderno (GOMES, 1996). A cultura ganha caráter dinâmico e em evolução. Passa de uma geração para outra, mas modifica-se neste processo de comunicação e nas transformações sociais. Aspectos materiais continuam fazendo parte dos trabalhos, mas em outro contexto. Deixam de ser a única forma de se explicar as relações culturais e passam a ser estudados junto dos aspectos cognitivos, das atividades mentais e trocas de informações e idéias. As antigas metodologias, técnicas e teorias são repensadas permitindo um maior diálogo com novas concepções dentro da própria geografia e outras derivadas das demais ciências.
A cultura passa a ser definida como “a soma dos comportamentos, dos saberes, das técnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante suas vidas e, em outra escala, pelo conjunto dos grupos de que fazem parte” (CLAVAL, 2001a, p.63).
Desta maneira, a cultura deixa de ser apreendida como algo já dado e estanque, mas agora como algo dinâmico e de caráter simbólico. Desta forma, temáticas até então negligenciadas pela ciência geográfica, como o futebol, passam a ser incorporadas (MASCARENHAS, 1999). No caso especifico deste, apesar das novas possibilidades epistemológicas, ele ainda não recebe a atenção necessária da ciência geográfica. Há pouquíssimos trabalhos que abordam esta temática sob o olhar geográfico.
É fundamental que a Geografia dê mais atenção para o futebol, pois este é um importante elemento da sociedade brasileira, tanto sob sua dimensão esportiva quanto cultural, social, identitária e até mesmo espacial. O futebol faz parte do cotidiano dos brasileiros, que manifestam através dele sua cultura e sua visão do espaço. Ele constrói territorialidades próprias, apropriando-se de elementos simbólicos. Ele transcende, assim, sua qualidade esportiva, passando ser um fator essencial para a compreensão da construção espacial e social brasileira e até mesmo mundial. GIULIANOTTI (2002. p. 08) atribui a importância dada ao futebol não apenas porque este é parte integrante de uma cultura, mas também porque “as características valorizadas no jogo nos dizem algo fundamental sobre as culturas em que ele é praticado.”
No Brasil, é atribuído ao futebol um importante lugar na constituição de uma cultura nacional, bem como no estabelecimento de uma suposta identidade nacional. BELLOS aponta o futebol como “o símbolo mais forte da identidade brasileira” e “o meio mais eficiente de se integrar à sociedade brasileira” (BELLOS, 2003, p. 09-10). Esta condição apontada por BELLOS exprime a importância que possui o futebol para o brasileiro, pois faz parte de sua vida cotidiana e de suas relações sociais. Roberto DAMATTA (1984, p. 17) afirma que “a construção de uma identidade social, então, como a construção de uma sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões”. No Brasil, o futebol é uma destas afirmativas. Para TOLEDO (2000, p. 08), o futebol é “uma manifestação cultural que revela nosso jeito, malícia, alegria ou ginga, o futebol protagonizou os contornos de um processo de identificação construído e engendrado por esses diferentes agentes sociais em interação”.
O futebol passou então a receber uma atenção especial de toda sociedade brasileira, pois além de ser um meio de manifestar sua cultura era uma forma simbólica de construção de uma suposta identidade nacional e da própria cultura brasileira manifestada ali. GIULIANOTTI (2002, p. 08) aponta o futebol como elemento central em diversas culturas: “sua centralidade cultural, na maior parte das sociedades, significa que o futebol tem uma importância política e simbólica profunda, já que o jogo pode contribuir fundamentalmente para as ações sociais, filosofias práticas e identidades culturais de muitos e muitos povos”.
Inclusive, o futebol foi altamente utilizado como instrumento político de legitimação não apenas de uma nação, mas também de regimes, principalmente ditatoriais. Este é o caso da utilização das seleções nacionais e clubes pelos governos de Mussolini, Hitler, Videla, Franco e de muitos governantes brasileiros (Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, João Goulart, os militares, entre outros). No Brasil, a expressão deste uso político do futebol pode ser visto na construção de enormes estádios pelo país, com intuito de reunir as massas para o espetáculo futebolístico, que muitas vezes era permeado por elementos políticos (HELAL, 1997).
No início dos anos 70 foram construídos vários estádios com capacidade para mais de 70 mil pessoas e alguns inclusive com capacidade para mais de 100 mil pessoas, como por exemplo o Morumbi, em São Paulo, o Rei Pelé, em Maceió, e o Castelão,no Ceará. Nessa época, o país, sob regime militar, atravessava um período de otimismo econômico que ficou conhecido como o “milagre brasileiro”. A propaganda oficial, estimulando o ufanismo, falava em “País do Futuro”, “Ame-o ou Deixe-o” e “Brasil Grande”, e o futebol, devido a sua expressiva popularidade, atraía o interesse do governo em tornar eficazes as suas mensagens. Este fato, somado ao sucesso do futebol brasileiro nos anos 60, encorajou a construção de grandes estádios por todos o país (HELAL, 1997, p. 52).
As Copas do Mundo são os pontos máximos de identificação nacional em torno do futebol. Desta forma, nestes períodos o uso político do futebol é mais visível, principalmente quando a Seleção consegue êxito: “para os ligados mais diretamente ao governo, repetir o discurso oficial era fácil, uma vez que bastava relacionar o desempenho da seleção ao momento de euforia econômica que se convencionou chamar de Milagre” (AGOSTINO, 2002, p. 162). Tal citação expressa como o governo brasileiro soube aproveitar a vitória na Copa de 1970, mesclando propagandas da própria Seleção Brasileira com propagandas do Regime Militar. O futebol, além de manifestar uma cultura nacional, também afirma culturas locais. Esta cultura local é manifestada, principalmente, através dos clubes e das rivalidades:
Ao mesmo tempo que o nacionalismo do futebol emerge periodicamente nos eventos e torneios internacionais, são interesses locais e municipais que seguram o jogo no nível básico. As lealdades diárias de torcedores e jogadores tendem a ser concedidas a clubes individuais muito mais do que as nações. No âmbito do clube, encontramos importantes reflexões simbólicas do período moderno inicial, industrial, urbano, em que o futebol emergiu como esporte nacional, tanto no velho quanto no novo mundo (GIULIANOTTI, 2002, p. 53-54).
Portanto, a constituição do futebol como elemento fundamental na cultura e sociedade brasileiras não se dá apenas no âmbito nacional, mais especificamente no que diz respeito à Seleção Brasileira. Os clubes têm papel essencial na afirmação do futebol nas sociedades locais. O futebol ocupa lugar central na sociedade e cultura brasileiras, sendo possível, então, afirmar que possui uma instância própria da espacialidade: o espaço de representação do futebol. A seguir será apresentado este conceito, que é muito rico para a apreensão das relações espaciais do futebol, não sendo, entretanto, a única maneira de fazê-lo. A diversidade de abordagens é extremamente positiva para se estudar o futebol sob o olhar geográfico, pois as possibilidades são inúmeras. Desta maneira, não é possível restringir o estudo do futebol apenas à abordagem cultural em geografia, mas também estender esta apreensão a outras perspectivas, tais como a da Geografia Social.
ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
As representações sociais são formas de conhecimento produzidas no cotidiano (MOSCOVICI, 2003). Elas são criadas, circulam, se modificam e morrem no dia-a-dia dos indivíduos. Assim, o conhecimento formulado no cotidiano do futebol se dá através de representações sociais, formuladas pelos diferentes atores sócio-espaciais do futebol. Elas devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que se sabe. Reproduzem o mundo de forma significativa, pois cada representação é acompanhada de uma imagem e de uma significação simbólica. As representações sociais são a forma pela qual as pessoas compreendem a realidade, sendo sua finalidade “tornar familiar algo não-familiar, ou a própria não familiaridade” (MOSCOVICI, 2003, p. 54).
É possível dizer que o futebol também constitui um espaço próprio, no qual se relacionam os atores sócio-espaciais. Este instância da espacialidade é o espaço de representação do futebol. Nele os indivíduos produzem territorialidades próprias e se apropriam de elementos simbólicos. O espaço de representação do futebol tem grande importância na vida dos brasileiros, que manifestam através do futebol sua cultura. O conceito de espaço de representação do futebol deriva das concepções sobre o espaço de representação.
Este é uma instância da espacialidade que transcende o espaço físico e permite que seus objetos recebam valores simbólicos (LEFÉBVRE, 1991). É um espaço simbólico que interage com as outras instâncias da espacialidade: a prática espacial e a representação do espaço. Nele se relacionam o real e o imaginário e se expressa o cotidiano (GIL FILHO, 2003).
LEFÉBVRE (1991) defende a idéia de que o espaço não é algo já dado, mas sim produzido. Atribui grande importância à organização espacial como produto social. Em “The Production of Space” (1991), LEFÉBVRE apresenta uma discussão sobre o espaço social, sendo ponto fundamental de tal debate a divisão do espaço em três componentes coexistentes. O espaço de representação é um destes componentes, que formam o que SOJA (1996), ao analisar a obra deste autor, chama de trialética do espaço. Esta tríade é formada pelo: espaço percebido – o espaço das práticas sociais (spatial practice), das relações materiais da espacialidade social; espaço concebido (representations of space) – é o espaço das instituições, onde ocorrem as representações do espaço produzidas pelas relações de poder, que influenciam a percepção espacial; e o espaço vivido (representational spaces) – que é o espaço de representação, no qual o ser humano se auto-representa a fim de buscar seu prazer e autenticidade, esquivando-se do espaço concebido. O espaço de representação é simbólico. Nele os significados atribuídos aos objetos podem ser modificados em relação ao espaço físico. Geralmente, estes símbolos e signos fazem parte de um sistema mais ou menos coerente. LEFÉBVRE escreve sobre o espaço de representação: Space as directly lived through its associated images and symbols, and hence the space of ‘inhabitants’ and ‘users’, but also of some artists and perhaps of those, such as a few writers and philosophers, who describe and aspire to do no more than describe. This is the dominated – and hence passively experienced – space which the imagination seeks to change and appropriate. It overlays physical space, making symbolic use of its objects. Thus representational spaces may be said, though again with certain exceptions, to tend towards more or less coherent systems of non-verbal symbols and signs (LEFÉBVRE, 1991, p. 39) SOJA faz uma leitura da obra de LEFÉBVRE em seu livro “Thirdspace” (1996). Nele, o autor procura apresentar as principais formulações do filósofo francês e, a partir delas, realizar suas próprias. Ao falar do espaço de representação, SOJA o atribui a condição de conter em seu interior tanto o espaço real quanto o imaginário, simultaneamente: “Combining the real and the imagined, things and thought on equal terms, or at least not privileging one over the other a priori” (SOJA, 1996, p. 68).
Segundo Sylvio Fausto GIL FILHO (2003), o espaço de representação passa pelo espaço visível, mas é simbólico, tendo o atributo de projetar o ser no mundo. É através dele que o sujeito se contextualiza no mundo, se articulando com o espaço da prática social e suas relações materiais. GIL FILHO realiza uma proposta epistemológica para o uso do espaço de representação como conceito chave para estudos da geografia cultural. Para ele: O espaço de representação é o reino da esfera consensual, e a expressão da esfera retificada da consciência coletiva, o momento em que o atributo de ser uma coisa se torna típica da realidade objetiva. Sua prática cotidiana é a própria representação, e sua expressão é o condicionamento do poder exercido. O espaço de representação é um espaço vivo com ligações culturais, lócus da ação e das situações vivenciadas. É relacional em percepção, diferencialmente qualitativo e dinâmico e de natureza simbólica (GIL FILHO, 2003, p. 5). A categoria espaço de representação, conforme apresentado, é capaz de sustentar a teoria das representações sociais em uma perspectiva geográfica. Assim, contribui para que a abordagem cultural em geografia ganhe fôlego a partir da perspectiva da realização de um diálogo com a teoria das representações sociais. Deste modo, a cultura passa a exercer uma função norteadora, possibilitando que os trabalhos em geografia cultural se fundamentem na teoria das representações sociais e utilizem o espaço de representação como conceito chave. O espaço de representação se estrutura através de círculos que interagem entre si, formando complexas relações. Há o círculo dos reinos, das categorias de mediação e das categoriais centrais. Os reinos se manifestam enquanto representação social, já as categorias centrais, através de sua interação, produzem o conceito de espaço de representação. Elas se expressam através do círculo das categorias de mediação.
A partir do redimensionamento do espaço de representação realizado por GIL FILHO(2003) – em seus estudos sobre geografia da religião – foi desenvolvida a estruturação do espaço de representação do futebol. O espaço de representação do futebol se divide em três elementos das categorias centrais: o poder, o fato futebolístico e a prática social do futebol.
Estas três categoriais centrais se relacionam com os três reinos (da política institucional, da paixão/afetividade e do ethos futebolísticos) através das quatro seguintes categoriais de mediação: o mito moderno, o discurso, a identidade futebolística e o símbolo. A inter-relação de todos estes elementos constitui o espaço de representação do futebol (FIGURA 01).
ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO DO FUTEBOL
O futebol apresenta uma prática social própria, porém altamente articulada com a prática social cotidiana (no Brasil, ambas são dissociáveis). Tal articulação se dá de maneira mais íntima em sociedades em que o futebol ocupa um espaço importante como elemento sócio-cultural e de sociabilização. A mobilização social em torno da Seleção Brasileira em época de Copa do Mundo, sobretudo, é um exemplo desta articulação. Dentro do contexto do espaço de representação do futebol, prática social do futebol são todas e quaisquer relações sociais produzidas pelo futebol. Vai desde o ir ao estádio, o jogar, o torcer, até os comentários produzidos pela partida e seus bastidores. São nas relações cotidianas que circulam, são criadas e modificadas as representações sociais. Segundo BERGER e LUCKMANN (1999), a realidade social é construída objetiva e subjetivamente pelos indivíduos a partir de suas relações cotidianas. Como o futebol faz parte desta realidade, ele pode ser apreendido como, ao mesmo tempo, um produtor e um produto de representações sociais; através das quais o mundo cotidiano apresenta-se como coerente e dotado de sentido para os indivíduos.
A prática social do futebol se organiza em torno do “aqui e agora”, do face a face – que se constitui a base da interação social. Portanto, o encontro de torcedores no estádio ou em espaços públicos é a situação mais propícia para o surgimento, modificações e circulações de representações sociais. Mas a realidade social pode ser apreendida também através de mediações, ou seja, o indivíduo não precisa estar presente para ter contato com ela. Ele pode o fazer através da mídia, nas transmissões dos jogos. O fato futebolístico pode ser apontado como elemento original do espaço de representação do futebol, pois sem ele os outros não fariam sentido. Ele é o ritual, o espetáculo em si, a partida e os eventos que a circundam. Ele não se limita ao esporte profissional, mas se estende à prática lúdica do jogo. É a partir do fato futebolístico que os torcedores formulam as representações sociais, que os diferentes atores do espaço de representação do futebol se relacionam e produzem seus discursos, que os símbolos e mitos são gerados, enfim, que toda a malha de significados que permeia o futebol é criada.
O poder é fundamental na constituição do espaço de representação do futebol, pois ele permeia todas as relações (RAFFESTIN, 1993). Ele se materializa nas relações entre os diferentes atores sócio-espaciais, formando representações sociais, símbolos, mitos modernos, valores, discursos, etc. A existência do poder pressupõe uma relação desigual, uma relação de força, entre os indivíduos ou grupos que participam dela. O que não significa que o poder é algo exclusivamente maléfico e repressivo. O poder não é algo que é possuído, mas algo que é exercido. Não há aqueles que detêm e aqueles que não detêm o poder. Todos os indivíduos exercem e sofrem ações do poder (FOUCAULT, 1998). Os diferentes atores sócio-espaciais interagem entre si formando uma rede de relações sócio-espaciais a partir do futebol. Nesta rede, o poder é exercido de diversas maneiras entre as instituições e os atores sócio-espaciais.
As relações de poder produzem representações sociais que influenciam na maneira de se jogar, torcer, entender, de se relacionar com o futebol. As categoriais centrais, em interação, produzem símbolos, mitos modernos, discursos e identidades futebolísticas. Tais elementos são fundamentais, pois são eles que vão produzir sentido e perpetuar o universo simbólico do futebol. Eles surgem e circulam como representações sociais nas relações cotidianas produzidas pelo futebol. O discurso possui uma ligação íntima com o poder, pois é uma manifestação deste. Ele é produzido e circulado através de relações de poder, que por sua vez também dependem deste discurso para existir. O discurso pode ser entendido como a mediação entre fenômenos da realidade e o saber. Ele expressa este saber, uma construção de poder sobre fatos da realidade. Os discursos produzidos no espaço de representação do futebol estão ligados aos papéis dos atores sócioespaciais desta instância da espacialidade. Cada papel exige e produz uma certa prática discursiva. É certo que esta depende também do indivíduo que fala, mas é fundamental lembrar que este está investido de um cargo, que dentro da estrutura do futebol e das relações de poder às quais está exposto, exige certa regularidade discursiva.
Os símbolos estão presentes nos comportamentos, sentimentos, desejos e atos dos diversos atores sociais. Através deles é possível desvelar manifestações do inconsciente, os motivos das ações, descobrir os aspectos mais íntimos que motivam as diversas relações. Eles são todo e qualquer artefato ligado ao futebol, como as cores dos clubes, suas camisas, distintivos, bandeiras, mascotes, etc. O símbolo vai além do significado do objeto em questão, estendendo-se ao sujeito. Assim, os significados dos símbolos não são universais e intemporais, pois estes dependem da cultura na qual estão emersos, da época que se trata, dos atores sociais que se apropriam destes e das instituições que representam. Assim, o mesmo símbolo admite mais de uma significação, mais de uma interpretação; podem mudar de significado em relação de que se apropria deles. Estes elementos são fundamentais nas relações promovidas pelo futebol, pois são eles que dão significado ao espaço de representação do futebol. Os mitos estão inseridos no pensamento simbólico e seu entendimento passa pela compreensão dos ritos. CASSIRER (1992) atribui aos mitos a função de dar sentido à realidade. Desta maneira, são as referências do passado do esporte, dos clubes ou das seleções. Eles são construídos através da mitificação de jogadores, treinadores, entre outros atores desta instância da espacialidade. Eles afloram em épocas de dificuldades ou de conquistas, quando se remete ao passado. Os mitos modernos do futebol são construídos através dos tempos por seus feitos.
O processo de identificação se dá no cotidiano a partir da construção de significados com base em atributos culturais (CASTELLS, 2002). Os indivíduos criam identidades através do compartilhamento de representações sociais. Estas reagem à estrutura social, remodelando-a constantemente. Elas podem ser construídas através da história, geografia, instituições, fantasias, por relações de poder, entre outros fatores. Todavia, a identidade não passa apenas pelo processo de inclusão, mas também de exclusão – manifestado pela oposição ao outro a fim de promover o autoconhecimento. Fazer parte de um grupo é se opor a um antagônico. É através da identidade futebolística que os torcedores se “aglutinam” socialmente em torno de um clube. O compartilhamento de representações gera um sentimento de pertença formando-se, assim, as torcidas, que têm por característica a negação de outros clubes. Portanto, a identidade futebolística não se resume apenas a se identificar com um clube, mas também de negar os demais, principalmente os rivais.
Estas quatro últimas categorias apresentadas articulam os reinos. O reino da política institucional é aquele no qual as instituições futebolísticas interagem através de relações de poder. Tais relações são fundamentalmente políticas, pois é a partir delas que os indivíduos e grupos se diferenciam dos outros e que as organizações mantêm sua ordem interna. As instituições são construídas a partir de uma historicidade compartilhada. O mundo institucional precede o nascimento do indivíduo e permanecerá depois de sua morte. Elas têm histórias próprias, construídas por indivíduos em um processo social. Os clubes, federações e torcidas organizadas são alguns exemplos de instituições que constituem o espaço de representação do futebol. Este reino é fragmentado e desigual em suas relações entre os atores que o constituem. Assemelha-se ao universo retificado (MOSCOVICI, 2003).
Os valores produzidos pelas categorias centrais do espaço de representação do futebol se articulam no interior do reino do ethos futebolístico. Parte-se do pressuposto que o futebol produz e se estrutura através de uma série de valores, que podem ser antagônicos. Desta forma, as decisões tomadas no reino da política institucional, as manifestações de afetividade, as relações de poder, as representações sociais do futebol, etc. se articulam a partir de uma série de valores produzidos e modificados ao longo do tempo. Alguns valores produzidos pelo futebol e/ou contemplados por ele são o de profissionalismo, amadorismo, democracia social e racial, o da possibilidade de ascensão social, de identificação com a pátria, entre outros.
A afetividade é criada e manifestada a partir dos processos de socialização primária e secundária (BERGER; LUCKMANN, 1999). A socialização primária ocorre na infância, não apenas como um processo cognoscitivo, mas também tem como elemento fundamental as emoções. A criança se identifica com os significativos a sua volta, assimila os papéis e atitudes destes, e cria, assim, sua própria personalidade. Isto explica o fato da criança “herdar” dos pais a paixão por determinado clube. A socialização secundária é posterior a primária e depende desta. Ela é a interiorização de “submundos” institucionais. Esta interiorização é mais difícil do que a ocorrida no processo de socialização primária, pois agora o indivíduo já possui uma personalidade formada, ficando mais difícil o indivíduo trocar de clube quando mais velho. Além disto, este fato é socialmente condenável, sendo o indivíduo taxado de “vira casaca”. Nestes processos, não apenas os pais exercem influência, mas também os amigos e a própria mídia. O reino da afetividade é aquele no qual se articulam as diversas emoções em relação ao esporte, aos clubes, etc. As manifestações de afetividade levada ao extremo, de modo exaltado, serão chamadas aqui de paixão. Ela pode se manifestar de várias formas: pelos clubes, jogadores, etc. Além disto, a paixão pode desencadear outros sentimentos como o ódio por outros clubes ou seleções, entre outros. A paixão pelo clube passa pela negação dos demais. A paixão se manifesta nesta escolha e na defesa do clube, ou seja, no torcer. O torcedor não é completamente racional, não enxerga os fatos com imparcialidade, pois sua paixão o impede. Desta forma, rejeita tudo que não seja ligado ao seu clube, principalmente os outros times, pelos quais às vezes chega a cultivar ódio. As emoções permeiam todas as relações do espaço de representação do futebol de forma decisiva.
Em suma, o espaço de representação do futebol é a instância da espacialidade do futebol na vida dos indivíduos. Nele a experiência futebolística dos indivíduos é plena. Este espaço é concebido, construído, modificado e vivenciado nas relações cotidianas, através de representações sociais. No espaço de representação do futebol, os universos consensual e retificado se relacionam. Este espaço de representação do futebol ajuda os indivíduos a dar sentido a sua vida social, pois o futebol, no Brasil, extrapola seus significados esportivos, invadindo com enorme força o campo cultural e social, construindo paisagens, relações e símbolos. Tais elementos dizem muito sobre a cultura de uma determinada sociedade, pois são produtos de tal cultura. Assim sendo, o espaço de representação do futebol não é um conceito limitado exclusivamente para o estudo do futebol como esporte, mas como expressão social e cultural, podendo ser apropriado por qualquer estudo cujo objeto é a cultura e a sociedade em nível mundial, nacional, regional, estadual ou municipal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo procurou demonstrar a importância da apreensão do futebol pela ciência geográfica. O tema, muitas vezes negligenciado pela academia, merece maior atenção, pois é um elemento fundamental da cultura brasileira. O futebol transcende sua importância esportiva e tem importante papel social e espacial. Desta forma, o tema é pertinente não apenas para a abordagem cultural em geografia, mas como em outras perspectivas, como a Geografia Social, entre outras.
Uma interessante alternativa teórica para o estudo do futebol sob o olhar da Geografia é a do espaço de representação do futebol. Este conceito foi elaborado a partir de diversas formulações sobre o espaço de representação, como as de LEFÈBVRE (1991), SOJA (1996) e GIL FILHO (2003). Fundamentalmente, a prática social desta instância da espacialidade se dá no cotidiano. Mesmo assim, no espaço de representação do futebol os universos consensual e retificado coexistem. Esta prática está articulada com o fato futebolístico e ambos estão permeados pelas relações de poder. A interação destes elementos gera símbolos, mitos modernos, discursos e identidades futebolísticas, os quais se manifestam como representações sociais nos reinos da política institucional, ethos futebolístico e paixão/afetividade. No entanto, as possibilidades teóricas e metodológicas não se esgotam neste conceito.
Há um caminho muito longo a ser traçado, pois o futebol é um tema complexo, repleto de variáveis, nuances, peculiaridades locais, regionais e nacionais, que merecem ser estudas com maior atenção e afinco pela ciência geográfica.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FUTEBOL E MODERNIDADE NO BRASIL:
A GEOGRAFIA HISTÓRICA DE UMA INOVAÇÃO1
Gilmar Mascarenhas de Jesus (Brasil)
Professor Assistente do Dep. de Geografia
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Resumo
A introdução efetiva do futebol na vida urbana brasileira não obedeceu ao comando de um polo nacional indutor, mas se deu concomitantemente através de diferentes pontos do território, dada a existencia de uma estrutura espacial de base para o modelo agro-exportador. O ritmo de evolução, o significado e o alcance do futebol em cada uma das principais cidades brasileiras no início do século variou segundo condições locais. Este trabalho pretende expor e debater alguns aspectos geográficos presentes no advento do futebol no Brasil, considerando a base territorial um fator ativo na dinâmica social.
Unitermos: Modernidade Urbana. Estrutura Territorial. Futebol Brasileiro.
Abstract
The introduction of football in Brazilian urban life did not follow a ideal pattern of hierarchical diffusion. It happened simultaneously through different spots in the national territory, thanks to the spatial structure oriented by the agroexportation model. The rythm of evolution, the significance and the social dimension reached by football in each of the main Brazilian cities in the begining of this century corresponds to local differences. This paper aims at showing and debating some geographical features of the introduction of football in Brazil, considering the territorial framework as having an active role on the social process.
Key words: Urban Modernity. Territorial Structure. Brazilian Soccer.
Introdução
A ascensão da figura do sportman na segunda metade do século passado está inserida num contexto mais amplo, no qual um dos aspectos centrais é a configuração de um ambiente urbano inédito na história das cidades. Um novo modo de vida vai se introduzindo abrupta e festivamente nas principais capitais européias, e Marshall Berman (1986:18) o definiu como calcado na exacerbação dos prazeres mundanos, atmosfera de agitação e turbulência, aturdimento psíquico e embriaguez, expansão das possibilidades de experiência e destruição de barreiras morais.
A industrialização e a revolução nos transportes (movida particularmente pela expansão das ferrovias) impulsionaram sobremaneira o crescimento das cidades. Mas o principal efeito destes vetores talvez não fora a tão propalada explosão urbana, refletida em gráficos dramáticos (para alguns, apocalípticos) de curvas exponenciais de crescimento. Uma importante transformação se deu no plano qualitativo, na profunda alteração dos quadros de existência no âmbito da vida social urbana. Neste ambiente propenso em demasia às novas experiências é que os exercícios corporais em geral e os esportes em particular tiveram seu impulso definitivo, imprimindo à vida cotidiana ingredientes e marcas indeléveis. Tal cenário é definido por muitos autores como modernidade urbana.
Não vamos nos alongar sobre um debate amplo e já tão bem delineado (por vias diversas) por autores como ELIAS (1985), DUNNING & SHEARD (1979), BARTH (1980), HOBSBAWN (1984), entre outros. O que nos interessa neste momento é refletir sobre a repercussão nos países periféricos deste movimento oriundo do centro do capitalismo mundial. No Brasil, a forte conexão com o capital industrial e mercantil inglês viabilizou entre nós a introdução de substanciais alterações comportamentais (FREYRE, 1948, GRAHAM, 1973; MANCHESTER, 1973). Dentre elas a adesão à formação de clubes para a prática esportiva, tomados como mais uma importante contribuição britânica civilizadora.
É fato notório que os ingleses introduziram o futebol no Brasil através das zonas portuárias e das suas empresas aqui instaladas em diversos ramos (comércio, construção de ferrovias e outras infra-estruturas, indústria, etc). Entretanto, a presença inglesa, por si só, não explica a adesão a novas formas de comportamento social. É preciso que haja um ambiente local aberto e propício a transformações. O capital inglês se fez presente em inúmeros pontos do território brasileiro, sem contudo promover simultaneamente o mesmo quadro de efeitos. O futebol, enquanto novidade do mundo dito civilizado, atingiu concomitantemente diversas cidades brasileiras. Entretanto, somente se incorporou efetivamente ao cotidiano urbano nos locais que preenchiam determinados requisitos, que conformavam um ambiente que pretendemos denominar, apesar da forçosa simplificação, de modernidade urbana. O objetivo deste trabalho é mensurar e qualificar o quanto possível o papel de nossa base territorial urbana no processo de introdução e difusão de uma inovação, o futebol. A literatura acadêmica existente, além de muito reduzida (embora atualmente em fase de expansão), relega completamente o contexto geográfico deste movimento. Pretendemos demonstrar que a base territorial, com sua profunda diferenciação interna, condicionou o processo de introdução e consolidação do futebol como espetáculo de entretenimento urbano.
Comparamos, neste sentido, os estágios iniciais do futebol em algumas das principais cidades brasileiras no início do século: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e Belém. Cada cidade, dotada de uma dinâmica e ritmo próprios, imprimiu ao futebol suas marcas características. O esporte em si, era o mesmo, mas o significado social e a magnitude alcançada variaram de lugar para lugar, e não por razões aleatórias.
Algumas Dimensões da Geografia do Futebol no Brasil
Para aquilatar um pouco da importancia e ubiquidade que o futebol alcançou no Brasil basta percorrer breve e panoramicamente o vasto território nacional. Em cada pequena aglomeração humana, mesmo nas mais desabitadas regiões, há dois objetos na paisagem a caracterizar o nosso ecúmeno: uma pequena igreja e um campinho de futebol. Costuma-se dizer que a igreja pode até faltar (pois haverá sempre aquela outra do povoado mais próximo), mas o campinho, não.
Não há como ignorar a presença impregnante do futebol no cotidiano de nosso país. Dos imensos estádios espalhados pelas cidades de médio e grande porte, que vibram solidariamente às tardes de domingo, às conversas na mesa do botequim, passando pelo radinho de pilha aos ouvidos do lavrador distante, e derramando-se espaçosamente pelas páginas e imagens da grande imprensa, o Brasil respira o futebol. O calendário futebolístico demarca os tempos e os horizontes da vida cotidiana. E assim a metrópole se faz efetivamente presente e pulsante em cada dobra discreta do imenso território: ela é o palco dos grandes clubes e dos ídolos nacionais (JESUS, 1996).
Obviamente, a pujança do futebol brasileiro enquanto fato social, é uma construção histórica. A montagem deste amplo cenário é fruto dos processos articulados de formação de uma nação (e toda a sua carga simbólica) e de estruturação de um território em acelerada urbanização. Incialmente funcionando como apenas mais um modismo importado dos ingleses, prática restrita aos poucos jovens da elite republicana, o futebol se popularizou rapidamente. Sua difusão espacial expressiva permitiu que se tornasse uma poderosa instituição nacional (CALDAS, 1990; WITTER & MEIHY, 1979).
Não obstante tão evidente expressão espacial desta realidade, não existe no Brasil qualquer esboço de uma geografia do futebol. As raras referências existentes não passam de breves comentários, ainda que valiosos, como em SEABRA (1987). Tal omissão adquire contornos inquietantes quando se toma em conta, por um lado, a pujança do futebol no País, e por outro, a existência de várias experiências bem sucedidas de geógrafos no exterior (BALE, 1982, 1989, 1993; ROONEY, 1974; AUGUSTIN, 1995 e GASPAR, 1982).
As lacunas não se esgotam no âmbito da geografia. Majoritariamente, a historiografia do futebol brasileiro se restringe à escala local. Mesmo autores que se propõem a operar com a escala nacional (MAZZONI, 1950; e RODRIGUES FILHO, 1994, para citar apenas os clássicos), acabam se restringindo ao tradicional eixo Rio-São Paulo. A história do futebol nas demais cidades (à exceção de Porto Alegre) permanece pouco documentada e sobretudo pouco conhecida. Mesmo Janet Lever (1983), que indubitavelmente maneja uma área geograficamente mais extensa, deixa enormes lacunas.
Para realçar a necessidade de se edificar uma abordagem geográfica, cumpre lembrar que a difusão do futebol no Brasil, como qualquer outro movimento no interior de uma determinada sociedade, não se realiza de forma independente da base territorial. O espaço geográfico não é apenas o palco passivo do desenrolar dos fatos históricos. Pelo contrário, ele joga papel crucial no devir das estruturas socias. Ele é, como diz Milton SANTOS (1996:257), ao mesmo tempo, uma condição para a ação, uma estrutura de controle, um limite à ação, um convite à ação. Resulta desta premissa nossa intenção em examinar a configuração territorial da rede urbana brasileira no processo de introdução do futebol em nossa vida cotidiana.
Lecturas: Educación Física y Deportes.
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História do futebol
As origens do futebol na Inglaterra e no Brasil
INTRODUÇÃO
Hoje em dia, o futebol é o esporte mais popular do mundo. Em praticamente todos os países do mundo ele é praticado e possui ligas e confederações. São bilhões de torcedores em todo o mundo, que torcem pelos seus clubes e por suas seleções nacionais. O evento esportivo mais lucrativo e esperado do mundo é a Copa do Mundo, ocorrida de quatro em quatro anos e acompanhada por mais da metade da população mundial. Esse esporte mundial movimenta quantias imensuráveis de dólares anualmente, devido a contratos televisivos e patrocínios, assim como devido a transação de jogadores. Porém, como tudo, o Futebol teve a sua origem, e teve os seus primeiros anos. Neste trabalho pretendemos mostrar o surgimento do Futebol na Inglaterra do século XIX, e também apresentar o seu processo de massificação na Europa. Além disso, mostraremos o período do surgimento do Futebol no Brasil, país mais reconhecido internacionalmente devido à habilidade e paixão futebolística de seu povo. Faremos um trabalho sobre a origem daquele que podemos chamar de o esporte do Século XX.
AS ORIGENS DO FUTEBOL QUE CONHECEMOS
O futebol, como esporte moderno, foi criado na Inglaterra do século XIX. Entretanto, muitas pesquisas mostram que o jogo de bola, tanto praticado com os pés como com as mãos é praticado bem anteriormente ao século XIX. Alguns estudiosos dizem que a origem deste esporte está na China, há muitos séculos atrás. Dizem que um "esporte" muito parecido com o futebol era praticado por soldados do Imperador Xeng Ti 25 séculos A.C.. A bola era de pele de animal recheada com ferragens . Colocamos o termo esporte entre aspas pois, como sabemos tal palavra só pode ser empregada após o século XIX, e as atividades físicas do período anterior ao contemporâneo podiam ser consideradas mais como rituais religiosos ou como preparação militar do que esporte.
Muitos pesquisadores dizem também que o futebol tem origem em um "esporte" praticado na Itália medieval. "Esporte" aliás, que existe até hoje e é praticado anualmente na cidade de Florença. Estamos falando do Calcio. Tal esporte consiste de um jogo entre duas equipes que, em um campo de terra têm que atravessar uma bola até uma área ao final do campo adversário. O jogo pode ser caracterizado como muito violento, pois os ataques físicos entre os jogadores dos dois times são constantes e permitidos. Os italianos acreditam que a origem do futebol está no Calcio, tanto que, na Itália, o futebol como conhecemos é chamado de Gioco Calcio. Assim como o Calcio, na Inglaterra, um jogo era praticado desde mais ou menos o ano de 1300: o Hurling. Tal jogo tinha características muito parecidas com o Calcio, e era também muito violento.
O Calcio tem características muito parecidas com um esporte que surge na Inglaterra ao mesmo tempo que o futebol: o Rugby. Aliás, podemos dizer que o futebol e o rugby tem uma raiz comum, pois são muito parecidos, e que se dividiram na metade do século XIX na Inglaterra, devido a dissidências na questões das regras entre os participantes. Enquanto o Rugby pode ser jogado com as mão e com os pés, o Football — como o próprio nome diz— só pode ser jogado com os pés, sendo apenas o Keeper que pode pegar a bola com as mãos.
Entretanto, podemos dizer que desde os mais remotos tempos o homem e a sua sociedade sempre praticaram jogos, ou para se divertirem entre a comunidade, ou como ritual religioso. Tais praticas são aspectos das mais variadas culturas ao redor de todo o mundo. Podemos dizer então que o Futebol nasceu daí. Porém esses jogos não tinham um nome definido e variavam de regiões e regiões da Inglaterra, da Europa e do Mundo. Podemos dizer que, na Inglaterra, berço do Futebol moderno, esses jogos eram praticados pelas camadas populares, que vinham praticando essas atividades culturais há várias gerações. Talvez elas não fossem igual ao Futebol, ao Rugby, mas tinham um objetivo cultural de diversão e ligamento entre os membros da comunidade. Como sabemos, a aristocracia não praticava tais jogos, pois provavelmente os achavam como atos de barbárie, praticados por pessoas sem cultura, além de serem muito violentos. A aristocracia preferia praticar outros jogos, como a equitação, a caça e a esgrima. Esses jogos eram chamados, na Inglaterra do século XVIII e XIX de esportes, e os esportes que conhecemos hoje( ou algo parecido com eles) eram chamados de passatempo .
Esses jogos populares, no século XIX, começaram a ser praticados, em seus horários livres, pelos alunos das escolas da aristocracia e da alta burguesia inglesa. O colégio de Rugby talvez seja a mais famosa dessas escolas, pois dele saíram as regras do Rugby. O Rugby e o Football eram praticados pelos alunos deste colégio, fazendo com que os diretores dos colégios proibissem a prática dessas atividades, devido ao fato delas serem populares, violentas e "bárbaras". De nada adiantou tal proibição, pois os alunos continuavam praticando esses esportes. Como a repressão a esses jogos não deu muito certo, as questões tiveram que ser resolvidas de outra forma. Já que não parariam de ser praticadas a melhor maneira era de que tais jogos fossem regulamentados. Daí começaram a surgir as regras nesses jogos, criando-se assim as regras do Football e do Rugby, além de outros jogos.
Porém, tais jogos haviam sido regulamentados apenas nas escolas da elite inglesa. Era preciso regulamentar esses jogos também entre as classes mais "baixas" da sociedade inglesa. O início do século XIX foi o período do ápice da primeira Revolução Industrial na Inglaterra. A classe operária já estava praticamente consolidada e já começava a ter a sua consciência de classe. A classe operária inglesa também praticava esses jogos, principalmente nos horários livres que foram conquistando no processo de conscientização de classe e do movimento operário sindical. Porém, como sabemos, tais jogos eram muito violentos e não tinham regras algumas as vezes. Tal violência do esporte fazia com que a produção do operariado caísse, devido a lesões e cansaços, prejudicando assim o lucro dos grandes patrões da burguesia industrial. Era preciso, assim como foi feito nas escolas, regulamentar esses jogos, para torná-los menos violentos e trazê-los para dentro da esfera do controle do Estado. Tal regulamentação do Football foi expandida, com a ajuda do Estado, para toda a sociedade inglesa. A classe burguesa industrial triunfou, e suas regulamentações esportivas se massificaram, tornado o futebol em um esporte de massa. Além disso, " os burgueses descobriram o futebol como meio de despolitização dos trabalhadores na década de 1860.(...) O objetivo era bem claro. Eles precisavam manter os operários à margem da atividade política dentro de suas organizações de classe" . Podemos perceber que a regulamentação das regras do Futebol, e outros jogos, veio em um momento histórico onde o operariado começa a reivindicar os seus direitos e começavam a se tornar uma classe política. Nada melhor para a burguesia industrial do que controlar, a partir da criação de regras, um jogo em que a maioria proletária praticava.
Princípios do futebol na Inglaterra, séc. XIX Enfim, em 1863 foi fundada na Inglaterra a Football Association, fazendo com que se criasse regras para a prática do jogo entre as equipes. Formavam-se assim tabelas, datas dos jogos, ou seja, controlava-se a prática. Os times eram formados pelas fábricas espalhadas pelas diversas cidades do país. Os jogadores destes times eram os próprios funcionários destas fábricas, que disputavam jogos, geralmente nos sábados a tarde (tradição existente até hoje no Campeonato Inglês de Futebol) no dia em que tinham folgas. Muitas pessoas iam assistir esses jogos.
Geralmente eram também operários das fábricas as quais os times representavam, e também a família e a comunidade desses jogadores. É nesse período que começam a surgir as grandes rivalidades entre os diferentes times das cidades da Grã Bretanha. É nesse momento que surgem as disputas entre o Manchester City e o Manchester United, o Glasgow Celtic e o Glasgow Rangers, e o Arsenal, o Chelsea e o Cristal Palace em Londres . Como podemos perceber, inicia-se neste momento a identificação por parte da população pelos clubes de futebol, seja por razões comunitárias, culturais e até mesmo religiosas. Tal massificação do futebol fez com que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamasse o jogo de futebol como "a religião leiga da classe operária".
Uma questão muito interessante a ser discutida é de que como o futebol conseguiu tanto sucesso entre as massas, e até mesmo entre todas as classes? Qual o motivo de toda essa paixão pelo esporte surgida na Segunda metade do século XIX? Talvez o historiador Nicolau Sevcenko possa nos responder essa pergunta.
"Assim, num curtíssimo espaço de tempo, o futebol conquistou por completo toda a população trabalhadora inglesa e, em breve, conquistaria a do mundo inteiro. Como entender esse frenesi, esse poder irresistível de sedução, essa difusão epidêmica inelutável? Como vimos, parte da explicação está nas cidades, parte no próprio futebol. A extraordinária expansão das cidades se deu, como vimos, a partir da Revolução Científico-Tecnológica, pela multiplicação acelerada da massa trabalhadora que para elas acorreu em sucessivas e gigantescas ondas migratórias. Nas metrópoles assim surgidas, ninguém tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes partes do território nacional ou do mundo. Na sua busca de novos traços de identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão que substituíssem as comunidades e os laços de parentesco que cada um deixou ao emigrar, essas pessoas se vêem atraídas, dragadas para a paixão futebolística que imana estranhos, os faz comungarem ideais, objetivos e sonhos, consolida gigantescas famílias vestindo as mesmas cores."
Como vemos, o futebol se tornou uma forma de identificação para as massas trabalhadoras das grandes cidades inglesas. Os times se tornaram muito mais do que times, se tornaram um objeto em que as pessoas encontravam o seu igual, encontravam seus objetivos e sonhos, tão arraigados pelo trabalho árduo nas fábricas durante a semana. O futebol faz com que todos saiam ganhando. Tanto as grandes massas, que encontram nele certa identidade, quanto pela burguesia, que o utiliza para regulamentar a sociedade e a massa proletária.
O século XIX pode ser considerado o século do imperialismo inglês pelo mundo. Assim como o comércio inglês se expandiu pelo mundo, os seus aspectos culturais também. E com o futebol não foi diferente.
AS ORIGENS DO FUTEBOL NO BRASIL
"Assim é que, no Brasil, recebemos, do berço, o nome, a religião e o clube de futebol, que, juntamente com o sexo e o estado civil, nos acompaharão pelo mundo social que acabamos de entrar" . Como sabemos, o futebol está inserido na sociedade brasileira e também dentro de cada brasileiro. Mesmo daquele que não gosta do esporte tem um time que prefere mais, e sempre torce para a seleção nacional na Copa do Mundo. Desde pequeno todo cidadão brasileiro conhece o futebol, e começa a se inteirar com ele. Mas tudo isso tem uma origem.
Muito se discute, principalmente na historiografia atual, sobre o surgimento do Football no Brasil. A tese "oficial" é aquela que coloca o filho de ingleses Charles Willian Miller como o patriarca do futebol brasileiro. Em 1894, Miller teria trazido da Inglaterra, onde passara 10 anos estudando, uma bola de futebol, e algumas camisas, e ensinou os sócios do São Paulo Atletic Club (SPAC) a praticarem tal jogo tão difundido na Bretanha. Outras fontes dizem que o Football chegou ao Brasil com marinheiros ingleses em 1872, no Rio de Janeiro . Outros dizem que foram os trabalhadores ingleses das fábricas de São Paulo que trouxeram o futebol. Recentes estudos nos mostraram que o futebol já era praticado no Brasil em diversos colégios pelo Brasil. Em 1880 já se praticava o esporte no colégio São Luiz, em Itu; em 1886 se praticava no colégio Anchieta, no Rio de Janeiro; também no Rio, em 1892, se praticava o "esporte bretão" no colégio Pedro II. A data real do aparecimento do futebol no Brasil realmente não interessa, o que interessa é o caminho que o esporte seguiu no Brasil em seus primeiros anos. Segundo Nicolau Sevcenko o futebol se difundiu por dois caminhos: "um foi dos trabalhadores das estradas de ferro, que deram origem às várzeas, o outro foi através dos clubes ingleses que introduziram o esporte dentre os grupos de elite." . Podemos dizer que Sevcenko tem certa razão. Realmente, podemos perceber, que o futebol no Brasil seguiu estes dois caminhos, mas tais caminhos também se cruzavam. Miller apresentou o futebol à elite paulista, e a sua aceitação foi rápida pelos clubes das diferentes comunidades. Ao mesmo tempo que a elite começava a praticar esse esporte, o futebol se desenvolvia entre a classe operária, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. O futebol se expandiu rapidamente pelo Brasil. Os diversos times dos operários das fábricas iam surgindo na várzea paulista, e os clubes iam adotando o esporte em seus quadros.
Segundo Waldenyr Caldas "o primeiro grande jogo, aquele que empolgou a platéia, foi realizado em São Paulo, em 1899, na presença de sessenta torcedores(...). de um lado, estava o time formado peos funcionários da empresa Nobling; do outro, os ingleses que trabalhavam na Companhia de Gás, da Estrada de Ferro e do Banco (inglês). No final, um resultado sem novidades: vitória dos ingleses por 1 x 0. . Os clubes de elite começaram a se organizar e a fazer partidas de futebol entre si. Os primeiros amistosos entre clubes surgiram em São Paulo nos anos de 1899/1900, com os clubes do São Paulo Athletic, Germânia(atual E.C. Pinheiros) , Mackenzie e a Internacional, todos com sócios da elite paulistana e de várias origens , como Americanos, Ingleses e Alemães. A partir daí, em 1902, surgiu a Liga Paulista de Football, com apenas cinco clubes, os quatro já mostrados acima mais o C. A. Paulistano. A liga organizou o primeiro campeonato paulista de futebol, cujo campeão seria o São Paulo Athletic que possuía Charles Miller, o responsável pelo futebol no Brasil.
Ao mesmo tempo que os clubes de elite se organizaram e montaram campeonatos, podemos afirmar que os clubes da várzea, formados por operários das diversas fábricas que se expandiam nas crescentes Rio de Janeiro e São Paulo, começaram a organizar campeonatos entre si também. Porém, as fontes documentais desses jogos, e até mesmo desses "scratches" praticamente não existem, devido a sua característica de serem times pobres. Ao longo do início do século XX irão surgir diversos clubes formados por operários das fábricas no Rio e em São Paulo. exemplos são: o Bangu Atletic Club, no Rio de Janeiro; e os famosos Sport Club Corinthians Paulista e o Palestra Itália, em São Paulo. porém, diversos outros clubes de bairros operários existiam espalhados pelas diversas várzeas da cidade.
No Brasil, segundo Caldas, o Estado não se opôs a prática do Futebol nos colégios, nem nos locais públicos. Assim fez também a Igreja, que chegava a incentivar a prática do esporte em seus colégios . Isso provavelmente ocorreu, pois a experiência inglesa de proibição do esporte não havia dado certo, além do que, o esporte chegou ao Brasil com todas as suas regras já determinadas, não sendo motivo de preocupação para o Estado.
As grandes ligas, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo continuaram elitizadas até pelo menos a metade da Segunda década do século XX. Entretanto, com a grande difusão que o Football tomou no Brasil, conquistando as massas, as ligas tiveram que aceitar times vindos da várzea em seus quadros.
Palestra Itália,
hoje Palmeiras
fundado em 1914
Corinthians,
fundado em
1910
São Paulo Atletic Club: o Time de Charles Muller
O esporte havia se popularizado de tal forma, que agora não era, como nunca foi tanto, um esporte das elites. Segundo Sevcenko "tal como Londres, a cidade de São Paulo ficou até o final dos anos 20 dividida entre três agremiações arquinimigas, o Paulistano, o Palestra, e o Corinthians. Cada final de Campeonato era como uma guerra civil na cidade" . Os contos de Alcantara Machado ilustram isso.
Com o tempo, os clubes de elite foram se desligando do futebol, principalmente com a popularização do esporte. Hoje em dia, talvez o único clube que era de elite e que ainda tem o futebol como seu esporte principal seja o Fluminense Football Club do Rio de Janeiro. Com a profissionalização do futebol brasileiro, em 1933, muitos clubes de elite deixaram de praticá-lo em campeonatos oficiais, a exemplo do Clube Atlético Paulistano, maior campeão do período do amadorismo no futebol paulista, com 11 títulos.
CONCLUSÃO
Como vimos neste trabalho, o Futebol, surgido no século XIX, teve todo um processo de regulamentação para se tornar o que é hoje. Vimos como o esporte foi domesticado na Inglaterra do século XIX. Também vimos que tal esporte é parte essencial na construção da identidade das pessoas e dos diversos grupos. A exemplo disso hoje vemos as enormes torcidas dos clubes espalhadas pelo mundo que se juntam, e de certa forma se identificam, formando um grupo social. Infelizmente, como é comum entre diferentes grupos identificados com objetos diferentes, a situação descamba para a violência. Claro, que tal violência não tem origem apenas na rivalidade futebolística, mas sim em outros fatores, como os problemas sociais, étnicos e até religiosos. Apesar do Futebol ter sido regulamentado, e hoje ser praticado em grandes campeonatos nacionais com regras especificadas por um órgão mundial(FIFA), pensamos que muito daquele esporte popular, original, onde o intuito era a diversão, sem muitas regras, ainda existe. Não uma pessoa sequer que, quando pratica o futebol com os amigos, ou na escola, ou no campo do bairro que muda as regras do jogo e faz as próprias regras que o grupo de jogadores determinada. Quantas vezes não jogamos sem ninguém apitando o jogo; em jogos em que as demarcações do campo não são as mesmas do futebol "oficial". Esse espírito popular, tradicional do futebol ainda existe, em qualquer lugar do mundo.
BIBLIOGRAFIA
CALDAS, Waldenyr. O pontapé inicial. Contribuição à memória do futebol brasileiro. Tese de livre doscência. São Paulo: ECA/USP, 1988.
HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios. 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
RAMOS, Roberto. Futebol: ideologia do poder. Petrópolis: Vozes, 1984.
SEVCENKO, Nicolau. "Futebol, metrópoles e desatinos" in: Revista USP: Dossiê Futebol. Número 22, 1994.
VOGEL, Arno. "O momento feliz. Reflexões sobre o futebol e o ethos nacional" in: DAMATTA, Roberto (org.). Universo do futebol. Esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke.
Marco Antunes de Lima
marco@klepsidra.net
5º Ano - História/ USP
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http://www.klepsidra.net/klepsidra14/futebol.html
http://www.suapesquisa.com/futebol/
http://www.coladaweb.com/educacao-fisica/historia-do-futebol
http://www.clerioborges.com.br/futebol.html
INTRODUÇÃO
Hoje em dia, o futebol é o esporte mais popular do mundo. Em praticamente todos os países do mundo ele é praticado e possui ligas e confederações. São bilhões de torcedores em todo o mundo, que torcem pelos seus clubes e por suas seleções nacionais. O evento esportivo mais lucrativo e esperado do mundo é a Copa do Mundo, ocorrida de quatro em quatro anos e acompanhada por mais da metade da população mundial. Esse esporte mundial movimenta quantias imensuráveis de dólares anualmente, devido a contratos televisivos e patrocínios, assim como devido a transação de jogadores. Porém, como tudo, o Futebol teve a sua origem, e teve os seus primeiros anos. Neste trabalho pretendemos mostrar o surgimento do Futebol na Inglaterra do século XIX, e também apresentar o seu processo de massificação na Europa. Além disso, mostraremos o período do surgimento do Futebol no Brasil, país mais reconhecido internacionalmente devido à habilidade e paixão futebolística de seu povo. Faremos um trabalho sobre a origem daquele que podemos chamar de o esporte do Século XX.
AS ORIGENS DO FUTEBOL QUE CONHECEMOS
O futebol, como esporte moderno, foi criado na Inglaterra do século XIX. Entretanto, muitas pesquisas mostram que o jogo de bola, tanto praticado com os pés como com as mãos é praticado bem anteriormente ao século XIX. Alguns estudiosos dizem que a origem deste esporte está na China, há muitos séculos atrás. Dizem que um "esporte" muito parecido com o futebol era praticado por soldados do Imperador Xeng Ti 25 séculos A.C.. A bola era de pele de animal recheada com ferragens . Colocamos o termo esporte entre aspas pois, como sabemos tal palavra só pode ser empregada após o século XIX, e as atividades físicas do período anterior ao contemporâneo podiam ser consideradas mais como rituais religiosos ou como preparação militar do que esporte.
Muitos pesquisadores dizem também que o futebol tem origem em um "esporte" praticado na Itália medieval. "Esporte" aliás, que existe até hoje e é praticado anualmente na cidade de Florença. Estamos falando do Calcio. Tal esporte consiste de um jogo entre duas equipes que, em um campo de terra têm que atravessar uma bola até uma área ao final do campo adversário. O jogo pode ser caracterizado como muito violento, pois os ataques físicos entre os jogadores dos dois times são constantes e permitidos. Os italianos acreditam que a origem do futebol está no Calcio, tanto que, na Itália, o futebol como conhecemos é chamado de Gioco Calcio. Assim como o Calcio, na Inglaterra, um jogo era praticado desde mais ou menos o ano de 1300: o Hurling. Tal jogo tinha características muito parecidas com o Calcio, e era também muito violento.
O Calcio tem características muito parecidas com um esporte que surge na Inglaterra ao mesmo tempo que o futebol: o Rugby. Aliás, podemos dizer que o futebol e o rugby tem uma raiz comum, pois são muito parecidos, e que se dividiram na metade do século XIX na Inglaterra, devido a dissidências na questões das regras entre os participantes. Enquanto o Rugby pode ser jogado com as mão e com os pés, o Football — como o próprio nome diz— só pode ser jogado com os pés, sendo apenas o Keeper que pode pegar a bola com as mãos.
Entretanto, podemos dizer que desde os mais remotos tempos o homem e a sua sociedade sempre praticaram jogos, ou para se divertirem entre a comunidade, ou como ritual religioso. Tais praticas são aspectos das mais variadas culturas ao redor de todo o mundo. Podemos dizer então que o Futebol nasceu daí. Porém esses jogos não tinham um nome definido e variavam de regiões e regiões da Inglaterra, da Europa e do Mundo. Podemos dizer que, na Inglaterra, berço do Futebol moderno, esses jogos eram praticados pelas camadas populares, que vinham praticando essas atividades culturais há várias gerações. Talvez elas não fossem igual ao Futebol, ao Rugby, mas tinham um objetivo cultural de diversão e ligamento entre os membros da comunidade. Como sabemos, a aristocracia não praticava tais jogos, pois provavelmente os achavam como atos de barbárie, praticados por pessoas sem cultura, além de serem muito violentos. A aristocracia preferia praticar outros jogos, como a equitação, a caça e a esgrima. Esses jogos eram chamados, na Inglaterra do século XVIII e XIX de esportes, e os esportes que conhecemos hoje( ou algo parecido com eles) eram chamados de passatempo .
Esses jogos populares, no século XIX, começaram a ser praticados, em seus horários livres, pelos alunos das escolas da aristocracia e da alta burguesia inglesa. O colégio de Rugby talvez seja a mais famosa dessas escolas, pois dele saíram as regras do Rugby. O Rugby e o Football eram praticados pelos alunos deste colégio, fazendo com que os diretores dos colégios proibissem a prática dessas atividades, devido ao fato delas serem populares, violentas e "bárbaras". De nada adiantou tal proibição, pois os alunos continuavam praticando esses esportes. Como a repressão a esses jogos não deu muito certo, as questões tiveram que ser resolvidas de outra forma. Já que não parariam de ser praticadas a melhor maneira era de que tais jogos fossem regulamentados. Daí começaram a surgir as regras nesses jogos, criando-se assim as regras do Football e do Rugby, além de outros jogos.
Porém, tais jogos haviam sido regulamentados apenas nas escolas da elite inglesa. Era preciso regulamentar esses jogos também entre as classes mais "baixas" da sociedade inglesa. O início do século XIX foi o período do ápice da primeira Revolução Industrial na Inglaterra. A classe operária já estava praticamente consolidada e já começava a ter a sua consciência de classe. A classe operária inglesa também praticava esses jogos, principalmente nos horários livres que foram conquistando no processo de conscientização de classe e do movimento operário sindical. Porém, como sabemos, tais jogos eram muito violentos e não tinham regras algumas as vezes. Tal violência do esporte fazia com que a produção do operariado caísse, devido a lesões e cansaços, prejudicando assim o lucro dos grandes patrões da burguesia industrial. Era preciso, assim como foi feito nas escolas, regulamentar esses jogos, para torná-los menos violentos e trazê-los para dentro da esfera do controle do Estado. Tal regulamentação do Football foi expandida, com a ajuda do Estado, para toda a sociedade inglesa. A classe burguesa industrial triunfou, e suas regulamentações esportivas se massificaram, tornado o futebol em um esporte de massa. Além disso, " os burgueses descobriram o futebol como meio de despolitização dos trabalhadores na década de 1860.(...) O objetivo era bem claro. Eles precisavam manter os operários à margem da atividade política dentro de suas organizações de classe" . Podemos perceber que a regulamentação das regras do Futebol, e outros jogos, veio em um momento histórico onde o operariado começa a reivindicar os seus direitos e começavam a se tornar uma classe política. Nada melhor para a burguesia industrial do que controlar, a partir da criação de regras, um jogo em que a maioria proletária praticava.
Princípios do futebol na Inglaterra, séc. XIX Enfim, em 1863 foi fundada na Inglaterra a Football Association, fazendo com que se criasse regras para a prática do jogo entre as equipes. Formavam-se assim tabelas, datas dos jogos, ou seja, controlava-se a prática. Os times eram formados pelas fábricas espalhadas pelas diversas cidades do país. Os jogadores destes times eram os próprios funcionários destas fábricas, que disputavam jogos, geralmente nos sábados a tarde (tradição existente até hoje no Campeonato Inglês de Futebol) no dia em que tinham folgas. Muitas pessoas iam assistir esses jogos.
Geralmente eram também operários das fábricas as quais os times representavam, e também a família e a comunidade desses jogadores. É nesse período que começam a surgir as grandes rivalidades entre os diferentes times das cidades da Grã Bretanha. É nesse momento que surgem as disputas entre o Manchester City e o Manchester United, o Glasgow Celtic e o Glasgow Rangers, e o Arsenal, o Chelsea e o Cristal Palace em Londres . Como podemos perceber, inicia-se neste momento a identificação por parte da população pelos clubes de futebol, seja por razões comunitárias, culturais e até mesmo religiosas. Tal massificação do futebol fez com que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamasse o jogo de futebol como "a religião leiga da classe operária".
Uma questão muito interessante a ser discutida é de que como o futebol conseguiu tanto sucesso entre as massas, e até mesmo entre todas as classes? Qual o motivo de toda essa paixão pelo esporte surgida na Segunda metade do século XIX? Talvez o historiador Nicolau Sevcenko possa nos responder essa pergunta.
"Assim, num curtíssimo espaço de tempo, o futebol conquistou por completo toda a população trabalhadora inglesa e, em breve, conquistaria a do mundo inteiro. Como entender esse frenesi, esse poder irresistível de sedução, essa difusão epidêmica inelutável? Como vimos, parte da explicação está nas cidades, parte no próprio futebol. A extraordinária expansão das cidades se deu, como vimos, a partir da Revolução Científico-Tecnológica, pela multiplicação acelerada da massa trabalhadora que para elas acorreu em sucessivas e gigantescas ondas migratórias. Nas metrópoles assim surgidas, ninguém tinha raízes ou tradições, todos vinham de diferentes partes do território nacional ou do mundo. Na sua busca de novos traços de identidade e de solidariedade coletiva, de novas bases emocionais de coesão que substituíssem as comunidades e os laços de parentesco que cada um deixou ao emigrar, essas pessoas se vêem atraídas, dragadas para a paixão futebolística que imana estranhos, os faz comungarem ideais, objetivos e sonhos, consolida gigantescas famílias vestindo as mesmas cores."
Como vemos, o futebol se tornou uma forma de identificação para as massas trabalhadoras das grandes cidades inglesas. Os times se tornaram muito mais do que times, se tornaram um objeto em que as pessoas encontravam o seu igual, encontravam seus objetivos e sonhos, tão arraigados pelo trabalho árduo nas fábricas durante a semana. O futebol faz com que todos saiam ganhando. Tanto as grandes massas, que encontram nele certa identidade, quanto pela burguesia, que o utiliza para regulamentar a sociedade e a massa proletária.
O século XIX pode ser considerado o século do imperialismo inglês pelo mundo. Assim como o comércio inglês se expandiu pelo mundo, os seus aspectos culturais também. E com o futebol não foi diferente.
AS ORIGENS DO FUTEBOL NO BRASIL
"Assim é que, no Brasil, recebemos, do berço, o nome, a religião e o clube de futebol, que, juntamente com o sexo e o estado civil, nos acompaharão pelo mundo social que acabamos de entrar" . Como sabemos, o futebol está inserido na sociedade brasileira e também dentro de cada brasileiro. Mesmo daquele que não gosta do esporte tem um time que prefere mais, e sempre torce para a seleção nacional na Copa do Mundo. Desde pequeno todo cidadão brasileiro conhece o futebol, e começa a se inteirar com ele. Mas tudo isso tem uma origem.
Muito se discute, principalmente na historiografia atual, sobre o surgimento do Football no Brasil. A tese "oficial" é aquela que coloca o filho de ingleses Charles Willian Miller como o patriarca do futebol brasileiro. Em 1894, Miller teria trazido da Inglaterra, onde passara 10 anos estudando, uma bola de futebol, e algumas camisas, e ensinou os sócios do São Paulo Atletic Club (SPAC) a praticarem tal jogo tão difundido na Bretanha. Outras fontes dizem que o Football chegou ao Brasil com marinheiros ingleses em 1872, no Rio de Janeiro . Outros dizem que foram os trabalhadores ingleses das fábricas de São Paulo que trouxeram o futebol. Recentes estudos nos mostraram que o futebol já era praticado no Brasil em diversos colégios pelo Brasil. Em 1880 já se praticava o esporte no colégio São Luiz, em Itu; em 1886 se praticava no colégio Anchieta, no Rio de Janeiro; também no Rio, em 1892, se praticava o "esporte bretão" no colégio Pedro II. A data real do aparecimento do futebol no Brasil realmente não interessa, o que interessa é o caminho que o esporte seguiu no Brasil em seus primeiros anos. Segundo Nicolau Sevcenko o futebol se difundiu por dois caminhos: "um foi dos trabalhadores das estradas de ferro, que deram origem às várzeas, o outro foi através dos clubes ingleses que introduziram o esporte dentre os grupos de elite." . Podemos dizer que Sevcenko tem certa razão. Realmente, podemos perceber, que o futebol no Brasil seguiu estes dois caminhos, mas tais caminhos também se cruzavam. Miller apresentou o futebol à elite paulista, e a sua aceitação foi rápida pelos clubes das diferentes comunidades. Ao mesmo tempo que a elite começava a praticar esse esporte, o futebol se desenvolvia entre a classe operária, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. O futebol se expandiu rapidamente pelo Brasil. Os diversos times dos operários das fábricas iam surgindo na várzea paulista, e os clubes iam adotando o esporte em seus quadros.
Segundo Waldenyr Caldas "o primeiro grande jogo, aquele que empolgou a platéia, foi realizado em São Paulo, em 1899, na presença de sessenta torcedores(...). de um lado, estava o time formado peos funcionários da empresa Nobling; do outro, os ingleses que trabalhavam na Companhia de Gás, da Estrada de Ferro e do Banco (inglês). No final, um resultado sem novidades: vitória dos ingleses por 1 x 0. . Os clubes de elite começaram a se organizar e a fazer partidas de futebol entre si. Os primeiros amistosos entre clubes surgiram em São Paulo nos anos de 1899/1900, com os clubes do São Paulo Athletic, Germânia(atual E.C. Pinheiros) , Mackenzie e a Internacional, todos com sócios da elite paulistana e de várias origens , como Americanos, Ingleses e Alemães. A partir daí, em 1902, surgiu a Liga Paulista de Football, com apenas cinco clubes, os quatro já mostrados acima mais o C. A. Paulistano. A liga organizou o primeiro campeonato paulista de futebol, cujo campeão seria o São Paulo Athletic que possuía Charles Miller, o responsável pelo futebol no Brasil.
Ao mesmo tempo que os clubes de elite se organizaram e montaram campeonatos, podemos afirmar que os clubes da várzea, formados por operários das diversas fábricas que se expandiam nas crescentes Rio de Janeiro e São Paulo, começaram a organizar campeonatos entre si também. Porém, as fontes documentais desses jogos, e até mesmo desses "scratches" praticamente não existem, devido a sua característica de serem times pobres. Ao longo do início do século XX irão surgir diversos clubes formados por operários das fábricas no Rio e em São Paulo. exemplos são: o Bangu Atletic Club, no Rio de Janeiro; e os famosos Sport Club Corinthians Paulista e o Palestra Itália, em São Paulo. porém, diversos outros clubes de bairros operários existiam espalhados pelas diversas várzeas da cidade.
No Brasil, segundo Caldas, o Estado não se opôs a prática do Futebol nos colégios, nem nos locais públicos. Assim fez também a Igreja, que chegava a incentivar a prática do esporte em seus colégios . Isso provavelmente ocorreu, pois a experiência inglesa de proibição do esporte não havia dado certo, além do que, o esporte chegou ao Brasil com todas as suas regras já determinadas, não sendo motivo de preocupação para o Estado.
As grandes ligas, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo continuaram elitizadas até pelo menos a metade da Segunda década do século XX. Entretanto, com a grande difusão que o Football tomou no Brasil, conquistando as massas, as ligas tiveram que aceitar times vindos da várzea em seus quadros.
Palestra Itália,
hoje Palmeiras
fundado em 1914
Corinthians,
fundado em
1910
São Paulo Atletic Club: o Time de Charles Muller
O esporte havia se popularizado de tal forma, que agora não era, como nunca foi tanto, um esporte das elites. Segundo Sevcenko "tal como Londres, a cidade de São Paulo ficou até o final dos anos 20 dividida entre três agremiações arquinimigas, o Paulistano, o Palestra, e o Corinthians. Cada final de Campeonato era como uma guerra civil na cidade" . Os contos de Alcantara Machado ilustram isso.
Com o tempo, os clubes de elite foram se desligando do futebol, principalmente com a popularização do esporte. Hoje em dia, talvez o único clube que era de elite e que ainda tem o futebol como seu esporte principal seja o Fluminense Football Club do Rio de Janeiro. Com a profissionalização do futebol brasileiro, em 1933, muitos clubes de elite deixaram de praticá-lo em campeonatos oficiais, a exemplo do Clube Atlético Paulistano, maior campeão do período do amadorismo no futebol paulista, com 11 títulos.
CONCLUSÃO
Como vimos neste trabalho, o Futebol, surgido no século XIX, teve todo um processo de regulamentação para se tornar o que é hoje. Vimos como o esporte foi domesticado na Inglaterra do século XIX. Também vimos que tal esporte é parte essencial na construção da identidade das pessoas e dos diversos grupos. A exemplo disso hoje vemos as enormes torcidas dos clubes espalhadas pelo mundo que se juntam, e de certa forma se identificam, formando um grupo social. Infelizmente, como é comum entre diferentes grupos identificados com objetos diferentes, a situação descamba para a violência. Claro, que tal violência não tem origem apenas na rivalidade futebolística, mas sim em outros fatores, como os problemas sociais, étnicos e até religiosos. Apesar do Futebol ter sido regulamentado, e hoje ser praticado em grandes campeonatos nacionais com regras especificadas por um órgão mundial(FIFA), pensamos que muito daquele esporte popular, original, onde o intuito era a diversão, sem muitas regras, ainda existe. Não uma pessoa sequer que, quando pratica o futebol com os amigos, ou na escola, ou no campo do bairro que muda as regras do jogo e faz as próprias regras que o grupo de jogadores determinada. Quantas vezes não jogamos sem ninguém apitando o jogo; em jogos em que as demarcações do campo não são as mesmas do futebol "oficial". Esse espírito popular, tradicional do futebol ainda existe, em qualquer lugar do mundo.
BIBLIOGRAFIA
CALDAS, Waldenyr. O pontapé inicial. Contribuição à memória do futebol brasileiro. Tese de livre doscência. São Paulo: ECA/USP, 1988.
HOBSBAWN, Eric. A Era dos Impérios. 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
RAMOS, Roberto. Futebol: ideologia do poder. Petrópolis: Vozes, 1984.
SEVCENKO, Nicolau. "Futebol, metrópoles e desatinos" in: Revista USP: Dossiê Futebol. Número 22, 1994.
VOGEL, Arno. "O momento feliz. Reflexões sobre o futebol e o ethos nacional" in: DAMATTA, Roberto (org.). Universo do futebol. Esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke.
Marco Antunes de Lima
marco@klepsidra.net
5º Ano - História/ USP
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http://www.klepsidra.net/klepsidra14/futebol.html
http://www.suapesquisa.com/futebol/
http://www.coladaweb.com/educacao-fisica/historia-do-futebol
http://www.clerioborges.com.br/futebol.html
A Escola e o futebol
Objetivo: motivar e dotar os alunos de conhecimentos dos quais eles têm muita dificuldade de associar com a realidade do mundo em que vivem, mas, questionam-nos reiteradas vezes.
Justificativa: os alunos não enxergam uma boa motivação para estudar e aprender na escola regular. Desconhecem, mas, questionam sobre os verdadeiros motivos e necessidades que tem um jogador de futebol, de aprender matemática entre outras disciplinas.
Autoria: Antônio Fernandes dos Santos e demais colaboradores (com links publicado)
Público: alunos do Ensino fundamental e médio.
A escola
Na escola, o local que a maioria dos alunos mais gosta é a quadra de futebol. A parte recreativa é o que mais seduz aos alunos. Mas, para um futuro craque da bola, ou craque do futebol, a escola não o ajudará em mais nada? Pensemos a respeito! Particularmente, eu creio que o grande craque, aquele que tem o objetivo de jogar muito futebol, que quer fazer parte da Seleção Brasileira, sabe que a sua preparação, o seu sucesso, inicia-se na sala de aula.
Artes, ciências, educação física, geografia, história, inglês, leitura, matemática e português. Quanto esses conteúdos podem ajudar ao futuro craque de futebol? Vamos pesquisar juntos?
1. História:
As origens do futebol na Inglaterra e no Brasil
Objetivo: motivar e dotar os alunos de conhecimentos dos quais eles têm muita dificuldade de associar com a realidade do mundo em que vivem, mas, questionam-nos reiteradas vezes.
Justificativa: os alunos não enxergam uma boa motivação para estudar e aprender na escola regular. Desconhecem, mas, questionam sobre os verdadeiros motivos e necessidades que tem um jogador de futebol, de aprender matemática entre outras disciplinas.
Autoria: Antônio Fernandes dos Santos e demais colaboradores (com links publicado)
Público: alunos do Ensino fundamental e médio.
A escola
Na escola, o local que a maioria dos alunos mais gosta é a quadra de futebol. A parte recreativa é o que mais seduz aos alunos. Mas, para um futuro craque da bola, ou craque do futebol, a escola não o ajudará em mais nada? Pensemos a respeito! Particularmente, eu creio que o grande craque, aquele que tem o objetivo de jogar muito futebol, que quer fazer parte da Seleção Brasileira, sabe que a sua preparação, o seu sucesso, inicia-se na sala de aula.
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As origens do futebol na Inglaterra e no Brasil
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